quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Uma história comestível da humanidade - Comida e estrutura social

PARTE II

3. Alimento, riqueza e poder

“É difícil adquirir riqueza, mas a pobreza está sempre à mão.”
PROVÉRBIO MESOPOTÂMICO, 2000 A.C.

Orientação vocacional

A Lista das Profissões Usuais é um documento da aurora da civilização, inscrito em pequenas tábuas de argila com as endentações características da escrita cuneiforme. As versões mais antigas, datadas de cerca de 3200 a.C., foram encontradas na cidade de Uruk (a Erech dos dias de hoje), na Mesopotâmia, a primeira região onde a escrita e as cidades surgiram. Existem muitas cópias dessa lista, pois era um texto-padrão usado para ensinar escribas. A lista consiste em 129 profissões, sempre escritas na mesma ordem, com as mais importantes no topo. Os itens listados incluem “juiz supremo”, “prefeito”, “erudito” e “supervisor dos mensageiros”, porém o significado de muitos deles é desconhecido. A lista indica que a população de Uruk, provavelmente a maior cidade da época, era estratificada em diferentes profissões especializadas, algumas mais importantes que as outras. Essa era uma grande mudança em relação às aldeias de agricultores que haviam emergido na região cerca de 5 mil anos antes. O alimento estava na raiz dessa transformação.
     A mudança de aldeias pequenas e igualitárias para cidades grandes, socialmente estratificadas, foi possível por conta de uma intensificação da agricultura, quando parte da população já produzia mais alimentos que o necessário para sua própria subsistência. Esse excedente podia, então, ser usado para sustentar outras pessoas – assim, não era mais necessário que todos fossem agricultores. Em Uruk, apenas cerca de 80% da população era de agricultores. Eles cultivavam campos que circundavam a cidade num raio de 16 quilômetros. A produção excedente era apropriada por uma elite dominante que redistribuía parte dela e consumia o resto. Essa estratificação da sociedade, ocasionada pelo excedente de alimentos cultivados, ocorreu não apenas na Mesopotâmia, mas em todas as partes do mundo em que havia agricultura. Foi a segunda importante maneira pela qual o alimento ajudou a transformar a natureza da existência humana. Com a agricultura, as pessoas se estabeleceram; com a intensificação da produção, elas se dividiram em ricas e pobres, em governantes e agricultores.
     A ideia de que as pessoas têm diferentes trabalhos ou profissões, e que algumas são mais ricas que outras, é considerada natural hoje, mas durante a maior parte da existência humana essa percepção não existia. A maioria dos caçadores-coletores, e, depois, dos primeiros agricultores, possuía riqueza equivalente e passava seus dias fazendo as mesmas coisas que os demais na comunidade. Estamos acostumados a pensar em comida como algo que reúne as pessoas, seja literalmente, em volta da mesa numa reunião social, ou metaforicamente, através de uma cozinha regional ou cultural partilhada. A comida também pode dividir e separar. No mundo antigo, alimento era riqueza, e controle do alimento era poder.
     Como na adoção da agricultura, as mudanças na produção de alimento e a consequente transformação das estruturas sociais ocorreram simultaneamente e de forma entrelaçada. Uma elite dominante não apareceu de repente exigindo que todos trabalhassem mais arduamente nos campos; nem uma produtividade maior gerou um excedente repentino a ser disputado, com o vencedor sendo coroado rei. Na verdade, o abandono do estilo de vida caçador-coletor significou que as limitações à capacidade do indivíduo de acumular bens e angariar prestígio – coisas que eram desaprovadas por caçadores-coletores – deixaram de se aplicar. Ainda assim, o nascimento de sociedades mais complexas levou algum tempo: na Mesopotâmia, a mudança de aldeias simples para cidades complexas demandou cinco milênios, e também na China e nas Américas ela demandou milhares de anos.
     O controle da comida era igual a poder porque ela, ao alimentar seres humanos e animais, mantinha literalmente tudo em movimento. A apropriação do excedente de alimentos cultivados deu às elites dominantes os meios para sustentar escribas, soldados e artesãos especializados, em regime de tempo integral. Significou também que certa parcela da população pôde ser utilizada em projetos de construção, já que os agricultores que permaneceram na terra forneceriam alimento suficiente para todos. Assim, uma abundância de comida excedente conferia a seu proprietário o poder de fazer todos os tipos de coisas novas: travar guerras, construir templos e pirâmides e sustentar a produção de itens artesanais elaborados por escultores especializados, tecelões e ferreiros. No entanto, para compreender as origens do poder dos alimentos é necessário começar examinando a estrutura das sociedades de caçadores-coletores e perguntar por que, anteriormente, as pessoas haviam considerado o acúmulo de alimento e poder tão perigoso e desestabilizador – e por que isso mudou.

Antigos igualitários

Os caçadores-coletores podiam passar apenas dois dias por semana vagando em busca de coisas para comer, mas nem por isso suas vidas deixavam de ser regidas pela busca por comida. Bandos de caçadores-coletores tinham de ser nômades, mudando-se a intervalos de algumas semanas, assim que os recursos alimentares ao alcance de cada acampamento começavam a se esgotar. Cada vez que o grupo se deslocava, tinha de levar consigo todas as suas posses. A necessidade de carregar tudo limitava a capacidade dos indivíduos de acumular bens materiais. Um inventário feito por antropólogos modernos de uma família de caçadores-coletores africanos, por exemplo, constatou que seus membros possuíam coletivamente uma faca, uma lança, arco e flechas, um protetor de punho, uma rede, cestas, um enxó, um apito, uma flauta, castanholas, um pente, um cinturão, um martelo e um chapéu. Poucas famílias no mundo desenvolvido poderiam arrolar todas as suas posses numa única frase. Esses itens eram compartilhados. Em vez de cada um ser obrigado a carregar sua própria faca ou lança, faz muito mais sentido partilhá-los, para que outras pessoas possam então carregar diferentes itens, como redes ou arcos. Bandos em que as ferramentas eram partilhadas teriam sido mais flexíveis e teriam tido mais probabilidade de sobreviver do que aqueles em que esses itens eram individuais. Assim, proliferaram os bandos em que havia pressão social para partilhar as coisas.
     A obrigação de partilhar estendia-se também à comida. Caçadores-coletores modernos, muitas vezes, seguem uma regra segundo a qual qualquer pessoa que traga comida para o acampamento tem de partilhá-la com todos aqueles que peçam. A regra fornece um seguro contra a escassez de alimentos, pois nem todos podem estar certos de encontrar alimento suficiente num dado dia, e mesmo os melhores caçadores só podem esperar matar um animal a intervalos de alguns dias. Se todos forem egoístas e insistirem em guardar sua própria comida para si mesmos, grande parte das pessoas passará fome a maior parte do tempo. A partilha assegura que a provisão seja equilibrada. Evidências etnográficas de caçadores-coletores modernos mostram que alguns grupos têm regras ainda mais elaboradas para impor a partilha. Em alguns casos, um caçador não tem sequer permissão para se servir de sua própria caça (embora algum parente assegure que ele receba alimento indiretamente). De maneira semelhante, reivindicar um pedaço de terra, e os recursos alimentares a ele associados, não é permitido. Essas regras asseguram que os riscos e recompensas da caça e da coleta sejam partilhados por todo o grupo. Historicamente, bandos que partilhavam a comida tiveram mais probabilidade de sobreviver que aqueles que não o faziam: a competição por recursos tende a estimular a superexploração, e disputas de propriedade teriam provocado a fragmentação do grupo. Mais uma vez, a partilha do alimento predominava porque conferia claras vantagens aos bandos que a adotavam.
     Tudo isso significava que caçadores-coletores não tentavam acumular símbolos de status para aumentar seu prestígio pessoal. Para que se incomodar, se esses bens deveriam ser partilhados com outros? Só depois do advento da agricultura foi que as primeiras indicações de riqueza ou posse privada apareceram. Como um antropólogo comentou, tendo observado caçadores-coletores na África:

Um boxímane faria qualquer esforço para evitar que outro boxímane sinta inveja dele, e por isso as poucas posses que os boxímanes têm estão constantemente circulando entre os membros de seus grupos. Ninguém cuida de conservar uma faca particularmente boa por muito tempo, ainda que possa desejá-lo desesperadamente, porque ela se tornará objeto de inveja; quando se sentar sozinho polindo um gume afiado na lâmina, ele ouvirá os sussurros dos outros homens de seu bando dizendo: “Vejam-no ali, admirando sua faca enquanto nós não temos nada.” Logo, alguém lhe pedirá sua faca, pois todos gostariam de tê-la, e ele a dará. A cultura deles determina que partilhem uns com os outros, e nunca ocorreu que um boxímane deixasse de partilhar objetos, comida ou água com outros membros de seu bando, pois sem uma cooperação muito rígida eles não poderiam sobreviver às fomes e secas que o Kalahari lhes impõe.

     Os caçadores-coletores também desconfiam de autopromoção e das tentativas de criar obrigações. Os boxímanes !kung, por exemplo, acreditam que o caçador ideal deve ser modesto e discreto. Depois de retornar da caça, deve minimizar a importância de suas façanhas, mesmo que tenha matado um grande animal. Quando os homens vão recolher o animal abatido, eles expressam seu desapontamento com o tamanho: “Ora, você nos fez andar até aqui por causa desse saco de ossos?” Espera-se que o caçador finja concordar e não se mostre ofendido. O objetivo de tudo isso é evitar que o caçador se considere superior, como um !kung explicou para um etnógrafo visitante: “Quando um jovem caça muita carne, ele passa a pensar em si mesmo como um chefe ou um grande homem, e pensa no resto de nós como seus criados ou inferiores. Não podemos aceitar isso. Por isso sempre desdenhamos de sua caça. Desse modo arrefecemos seu coração e o tornamos dócil.”
    Para complicar ainda mais as coisas, os !kung têm uma tradição pela qual a carne de um animal abatido pertence ao dono da flecha que o matou, não ao caçador que o atingiu. (Se duas ou mais flechas provocam a morte, a carne pertence ao dono que primeiro atingir o animal.) Como os homens trocam as flechas rotineiramente, isso torna façanhas espetaculares de caçadores solitários ainda menos prováveis. Caçadores particularmente habilidosos são assim impedidos de angariar prestígio pessoal concedendo grandes quantidades de comida a outros, o que poderia criar uma obrigação em contrapartida. De fato, ocorre justamente o contrário: quando atravessa um período de sorte e consegue muita comida, um caçador pode parar de caçar por algumas semanas, para dar a outros a chance de também se sair bem e assim evitar qualquer possibilidade de ressentimento. Afastar-se da caça por algumas semanas significa ainda que o caçador permite que outros lhe forneçam comida, de modo a não haver nenhuma obrigação notável para com ele.
    Richard Borshay Lee, um antropólogo canadense que viveu com um grupo !kung em várias viagens de pesquisa durante os anos 1960, enfrentou essas regras quando tentou agradecer a seus anfitriões oferecendo-lhes um banquete. Para tanto, comprou um boi grande e gordo e ficou surpreso quando os boxímanes começaram a zombar dele por ter escolhido um animal velho demais, magro demais, e cuja carne seria dura demais. No fim das contas, porém, a carne do boi revelou-se saborosa e macia. Então por que os boxímanes haviam sido tão críticos? “Os !kung são um povo arrebatadamente igualitário e têm pouca tolerância com a arrogância, a avareza e a insociabilidade entre seus membros”, concluiu Lee. “Quando veem sinais desse comportamento em seus pares, têm uma série de truques para impor a humildade e pôr as pessoas de volta na linha.” Os !kung, como outros caçadores-coletores, veem presentes suntuosos como uma tentativa de exercer controle sobre outros, angariar apoio político ou elevar o próprio status, coisas que vão contra a sua cultura. Seu igualitarismo estrito pode ser visto como uma “tecnologia social” desenvolvida para assegurar a harmonia social e uma provisão suficiente de alimento para todos.
     A comida determina a estrutura da sociedade dos caçadores-coletores também de outras maneiras. O tamanho dos grupos, por exemplo, depende da disponibilidade de recursos alimentares a uma curta distância do acampamento. Um bando grande demais esgota a área circundante mais rapidamente, obriga a um deslocamento mais frequente e exige um território maior. Em consequência, o tamanho dos grupos varia de 6 a 12 pessoas em áreas onde o alimento é escasso a de 25 a 50 pessoas em áreas com recursos mais abundantes. O bando é composto de uma ou mais famílias extensas cujos membros casam-se entre si; assim, os componentes são em sua maioria aparentados. Os bandos geralmente não têm líderes, embora algumas pessoas possam ter funções específicas além das tradicionais tarefas masculinas e femininas de caçar e coletar, respectivamente – como curar, fabricar armas ou negociar com outros bandos. Mas não há especialistas em tempo integral, e essas habilidades particulares não conferem status social mais elevado.
     Os bandos de caçadores-coletores mantêm alianças entre si tanto para garantir parceiros para casamentos quanto segurança adicional contra a escassez de alimentos. No caso de escassez, um bando pode, então, visitar outro com que seja relacionado por casamento e partilhar um pouco de sua comida. A partilha intergrupal na forma de grandes banquetes também ocorre em tempos de superabundância sazonal de alimentos. Esses banquetes, que parecem universais entre caçadores-coletores, proporcionam uma oportunidade para arranjar casamentos, realizar ritos sociais, cantar e dançar. Assim, o alimento une sociedades de caçadores-coletores, forjando laços tanto dentro dos bandos como entre eles.
     Dito isto, é importante não romantizar demais o estilo de vida dos caçadores-coletores. A “descoberta” de bandos de caçadores-coletores por europeus no século XVIII levou à imagem idealizada do “nobre selvagem”, que vivia num Éden não conspurcado. Quando Karl Marx e Friedrich Engels desenvolveram a doutrina do comunismo no século XIX, foram inspirados em parte pelo “comunismo primitivo” de sociedades de caçadores-coletores descritas por Lewis H. Morgan, um antropólogo americano que estudou povos americanos nativos. Mas, ainda que fosse mais sossegada e igualitária que a vida da maioria das pessoas de hoje, a vida dos caçadores-coletores nem sempre era idílica. O infanticídio era usado como meio de controle populacional e havia conflitos rotineiros e generalizados entre diferentes bandos, com evidências de morte violenta e até de canibalismo em alguns casos. A noção de que os caçadores-coletores viviam num mundo perfeito e pacífico é sedutora, mas errada. Mesmo assim, é claro que a estrutura de suas sociedades, sendo determinada sobretudo pela natureza da oferta de alimento, era obviamente diferente da estrutura das sociedades modernas. Assim, quando as pessoas adotaram a agricultura e a natureza da oferta de alimentos foi transformada, tudo mudou.

O aparecimento do “Grande Homem”

Quando as pessoas começaram a se estabelecer e a caça e a coleta transformaram-se gradativamente na agricultura, as primeiras aldeias ainda eram comunidades amplamente igualitárias. Evidências arqueológicas mostram que, habitadas usualmente por não mais de uma centena de pessoas, elas eram formadas por cabanas ou casas de forma e tamanho similares. O sedentarismo e a agricultura, porém, mudaram as regras que haviam desestimulado as pessoas a buscar riqueza e status. Os mecanismos sociais desenvolvidos para inibir as tendências inerentes do homem à organização hierárquica (claramente visível em macacos e em muitas outras espécies animais) começaram a se desgastar. Quando a pessoa não precisa mais se deslocar de um lugar para outro, começa a ser possível acumular excedentes de alimento e outros bens. Os primeiros sinais de diferenciação social começam a aparecer: povoados em que algumas habitações são maiores que outras e contêm itens de prestígio como conchas raras e objetos de adornos, cemitérios em que alguns túmulos contêm bens valiosos... Tudo isso sugere que o conceito de propriedade privada tornou-se rapidamente aceito – não há sentido em possuir símbolos de status se é preciso partilhá-los – e que começou a se instalar uma hierarquia social em que algumas pessoas eram mais ricas que outras.
     Apesar de sua generalização só ter se dado com a adoção da agricultura, em alguns lugares esse processo teve início antes disso, quando caçadores-coletores de áreas particularmente ricas em alimentos estabeleceram-se em aldeias permanentes. Aldeias agrícolas primitivas na bacia de Hupei, na China, no alto rio Yangtze – região onde o arroz foi domesticado por volta de 4000 a.C. – fornecem um bom exemplo. De 208 túmulos escavados, alguns continham bens rebuscados, ao passo que outros não continham nada além dos corpos dos mortos. De maneira semelhante, 128 túmulos datados de c.5500 a.C., em Tell es-Sawwan, no que é hoje o norte do Iraque, mostram uma clara variação de objetos tumulares. Alguns túmulos contêm alabastro entalhado, contas feitas de pedras exóticas ou cerâmicas, mas outros não contêm absolutamente nenhum item tumular. Em todos os casos temos o mesmo padrão: a adoção da agricultura conduziu à estratificação social, sutil no início, mas depois cada vez mais pronunciada.
     É fácil perceber como variações na produtividade agrícola de diferentes famílias e sua capacidade de armazenar certos alimentos (especialmente cereais secos) tornaram as pessoas mais inclinadas a exigir direitos de propriedade sobre a produção. Como pode ser trocada por outros itens, a produção alimentar armazenável excedente é equivalente a riqueza. É certo, porém, que um povoado onde alguns habitantes conseguem acumular mais alimento e quinquilharias do que outros é uma estrutura ainda muito distante das hierarquias sociais complexas das primeiras cidades, em que as elites dominantes apropriavam-se do excedente por direito e depois distribuíam a porção dele que elas próprias não consumiam. Como esses líderes poderosos emergiram, e como acabaram controlando os excedentes agrícolas?
     Um passo importante ao longo do percurso de uma aldeia igualitária para uma cidade estratificada parece ser o aparecimento de “grandes homens”, que conquistam o controle do fluxo de comida excedente e outros bens e assim reúnem um grupo de dependentes ou seguidores. Talvez surpreendentemente, o meio de persuasão do grande homem não é a ameaça de violência, mas sua abundante generosidade. Dando presentes a outros ele os transforma em seus devedores, e os põe na obrigação de retribuir com presentes mais generosos no futuro. Tais presentes muitas vezes vinham em forma de comida. Para manter esse ciclo ativo, um grande homem deve persuadir sua família a produzir comida excedente, que depois será dada a outros; em contrapartida, ele recebe mais comida, que pode distribuir entre seus parentes e também dar a outros, gerando assim mais obrigações. Esse processo pode ser observado ainda hoje, pois a cultura do grande homem ainda existe em algumas partes do mundo.
     Na Melanésia, um grande homem pode tomar várias esposas para aumentar os recursos excedentes à sua disposição: uma mulher para cultivar a horta e produzir alimento, uma para catar madeira, outra para pescar. Depois, distribui esses recursos cuidadosamente, deixando outras pessoas em dívida com ele, pessoas que deverão pagar-lhe de volta com mais alimento ou recursos; esses produtos serão passados adiante, assegurando assim um círculo de obrigações ainda maior. Esse processo estimula a intensificação da produção de alimentos e culmina, finalmente, em grandes banquetes com os quais o grande homem tenta “criar um nome para si”. Ele convida pessoas de fora de seu círculo usual, e até de outras aldeias, pondo-as na posição de devedoras e trazendo-as, assim, para sua esfera de influência. Dessa maneira, o grande homem se estabelece como um membro influente e poderoso da comunidade. A rivalidade entre grandes homens acelera o processo, à medida que eles rivalizam para promover os maiores banquetes e acumular o maior crédito.
     Isso significa que os grandes homens são ricos e preguiçosos? Longe disso. Para um grande homem, a riqueza não permite que se acomode, pois ela só é útil se estiver circulando. Em alguns casos, grandes homens podem até acabar ficando mais pobres que seus seguidores. Em grupos esquimós no norte do Alasca, por exemplo, os mais respeitados capitães baleeiros são responsáveis por negociar com caçadores de caribu do interior, e assim terminam controlando a distribuição e a circulação de objetos de valor em seu grupo. Mas, como devem dar tudo que recebem e não podem recusar um pedido de ajuda, veem-se frequentemente em piores condições materiais que seus seguidores. Grandes homens também têm de trabalhar pesado. Segundo um observador na Melanésia, o grande homem “tem de trabalhar mais arduamente que todos os outros para manter seus estoques de comida. Quem aspira a honras não pode repousar sobre os louros, mas deve continuar a promover grandes banquetes e a acumular crédito. É sabido que ele tem de labutar da manhã à noite.”
     Tudo isso serve realmente a uma finalidade prática dentro do grupo ou da aldeia: o grande homem age como uma carteira de compensação para alimentos excedentes e outros bens, e pode determinar a melhor forma de distribuí-los. Se uma família produz alimento extra, pode dar o excedente a um grande homem na expectativa de cobrar o favor numa data posterior – quando uma ferramenta precisar ser substituída ou a comida escassear. Assim, um grande homem bem-sucedido integra e coordena a economia da comunidade e emerge como seu líder. Mas não tem nenhum poder para coagir seus seguidores. A manutenção de sua posição depende de sua capacidade de prover a subsistência do grupo e administrar a redistribuição. Entre os nambikwara do Brasil, por exemplo, se o líder do grupo não for suficientemente generoso e deixar de prover a subsistência de seus seguidores, eles o deixarão de lado e ingressarão num grupo diferente. Em grupos melanésios, líderes que deixam de distribuir o excedente ou guardam uma parte grande demais para si mesmos podem ser depostos ou até assassinados. Numa situação como essa, o grande homem tem muito mais de um gerente que de um rei.

De cacicados a civilizações

Ora, como um grande homem, cuja posição depende de generosidade e comunhão, se transforma em chefe poderoso de um grupo de aldeias, ou cacicado, e depois em rei, no topo de uma elite dominante? Não é de surpreender, como no caso das origens e da difusão da agricultura, que o mecanismo seja obscuro e que haja muitas teorias conflitantes. Mais uma vez, é improvável que uma só teoria forneça a resposta – e certas explicações têm mais fundamento em algumas partes do mundo do que em outras. No entanto, considerando várias dessas teorias, é possível ter uma ideia de como cacicados, e depois civilizações, podem ter se iniciado. Em cada caso, o surgimento da estratificação social está estreitamente relacionado com a produção de comida. Formas mais elaboradas de organização social tornam possível maior produtividade agrícola, e um maior excedente de alimento pode sustentar formas mais elaboradas de organização social. Mas como o processo se inicia?
     Segundo uma teoria, um grande homem ou líder pode se tornar mais poderoso coordenando atividades agrícolas, em particular a irrigação. Os rendimentos do cultivo agrícola podem variar muito, mas com o nivelamento de terras, a construção de canais de irrigação e de sistemas de diques – coisas só possíveis com certo grau de organização social – pode-se reduzir essas variações. Isso aumentaria a produtividade agrícola da aldeia, e teria ainda outros efeitos. Membros da comunidade ficariam menos propensos a partir depois de terem investido em sistemas de irrigação e passado a depender deles; o controle do sistema de irrigação conferiria poder ao líder, já que qualquer pessoa que criasse um conflito poderia ter seu fornecimento de água reduzido; o sistema de irrigação poderia também precisar ser defendido, com o uso de soldados em tempo integral custeados pelo excedente de alimento e postos sob o controle do líder.
     Em suma, algo iniciado como um projeto agrícola comunitário poderia ter o efeito de aumentar enormemente o poder do líder. Com seus seguidores mais dependentes e uma guarda privada para protegê-lo, ele poderia então começar a reter uma parte maior do excedente para seu próprio uso, para alimentar sua família, abastecer soldados etc. Sistemas de irrigação são certamente um denominador comum de muitas civilizações primitivas, desde a Mesopotâmia até o Peru. Eles são encontrados também em cacicados, em lugares como o Havaí e o sudoeste da América do Norte. Alguns cacicados que dependiam da irrigação não se tornaram, no entanto, mais complexos ou nitidamente estratificados; e alguns esquemas elaborados de irrigação parecem ser antes a consequência que a causa de maior organização social. Assim, evidentemente outros fatores além da irrigação determinaram o nascimento de civilizações complexas, embora ela pareça ter desempenhado um papel importante em alguns casos.
     Outra hipótese sugere que o armazenamento comunal de excedentes agrícolas poderia fornecer ao líder uma oportunidade de estabelecer maior controle sobre seus seguidores. Aldeões entregam cereais excedentes ao grande homem prevendo presentes recíprocos numa data posterior, estimulando-o a organizar a construção de um celeiro. Depois de construído e abastecido, este fornece ao grande homem o “capital de giro” para fazer outras coisas. Ele pode financiar artesãos especializados, em tempo integral, e organizar obras agrícolas usando o excedente, sob a alegação de que tais investimentos produzem um retorno positivo, que pode ser devolvido ao celeiro. Projetos cada vez mais complexos de obras públicas legitimam então a posição do líder e requerem um número crescente de administradores, que despontam como a elite dominante. Segundo essa visão, há uma progressão natural desde a partilha recíproca organizada por um grande homem até a redistribuição do excedente supervisionada por um chefe poderoso.
     No Oriente Próximo, grandes prédios centrais começaram a aparecer dentro das aldeias depois de cerca de 6000 a.C., mas não está claro se eram celeiros partilhados, salões de banquetes, construções religiosas ou casas de chefes. É possível que servissem a várias dessas funções: um salão de banquetes construído para impressionar a aldeia vizinha poderia ter sido o lugar lógico para armazenar comida, e um celeiro teria sido um lugar óbvio para a realização de rituais de fertilidade a fim de assegurar uma boa colheita. No Havaí, há evidências de que áreas públicas construídas originalmente para banquetes foram mais tarde muradas, ficando seu acesso restrito a um grupo selecionado, de alta posição social. Assim, templos e palácios poderiam ter origem em casas comunais de armazenamento ou salões de banquetes.
     Uma terceira possibilidade é que a competição por terras cultiváveis tenha levado à guerra entre comunidades em áreas nas quais a terra era ambientalmente delimitada. No Peru, por exemplo, 78 rios correm das montanhas dos Andes para o litoral, atravessando 80 quilômetros de um deserto extremamente árido. A agricultura é possível perto dos rios, mas todas as áreas adequadas ao cultivo estão confinadas entre deserto, montanhas e oceano. No Egito, a agricultura é possível numa faixa estreita ao longo do Nilo, mas não no deserto que se estende além dele. E, nas planícies aluviais da Mesopotâmia, somente áreas próximas ao Tigre e ao Eufrates são adequadas para a agricultura. No início, essas áreas deviam ser esparsamente povoadas por alguns agricultores; à medida que a população se expandiu (o sedentarismo e a agricultura permitem que a população de agricultores cresça mais do que a de caçadores- coletores), novas aldeias devem ter sido fundadas. Como toda a terra arável disponível estava sendo usada, os agricultores intensificaram a produção, extraindo mais alimento de uma dada área por meio de sistemas elaborados de terraços e irrigação.
     Finalmente, porém, eles chegaram ao limite da produtividade agrícola, e as aldeias começaram a atacar umas às outras. Quando uma aldeia derrotava outra, apropriava-se de sua terra ou obrigava seu povo a entregar uma parte de sua colheita todos os anos. Desse modo, a aldeia mais forte dentro de uma área crescia como classe dominante, e as aldeias mais fracas tinham de entregar sua produção excedente, iniciando assim um sistema em que os pobres cultivavam a terra para os ricos. Tudo isso parece plausível, mas não há nenhuma evidência de que as pessoas chegaram ao limite da produtividade agrícola em qualquer dos lugares onde sociedades estratificadas emergiram pela primeira vez. No caso de uma seca ou de uma má colheita, contudo, é possível imaginar aldeias com reservas de alimentos sendo atacadas por aldeias vizinhas onde a comida tivesse acabado.
     Uma visão mais ampla que abarca todas essas teorias é a ideia de que sociedades mais complexas (isto é, aquelas com liderança forte e hierarquia social bem definida) serão mais produtivas, mais resistentes, mais capazes de sobreviver a privações e se defender. Assim, as aldeias em que surgissem líderes fortes suplantariam outras aldeias próximas e menos organizadas, e seriam lugares mais atraentes para se viver, pelo menos para aqueles que não se importassem em se submeter à autoridade do líder. Em geral, supõe-se que o surgimento de líderes fortes implica coerção, porém as pessoas poderiam inicialmente ter achado que valia a pena entregar ao líder toda ou parte de sua produção excedente se os benefícios que recebessem em troca – sistemas de irrigação eficientes, maior segurança, realização de ritos religiosos para conservar a fertilidade do solo, mediação em disputas – fossem considerados suficientemente valiosos. Nesse caso, o líder teria condições de guardar uma parte cada vez maior do excedente para seu próprio uso. Ora, depois que a pessoa se estabelece e investe trabalho numa casa, em campos e sistemas de irrigação, ela tem uma razão para permanecer onde está, mesmo que o líder comece a se pavonear, afirmando ser descendente de um deus ou coisa do gênero.
     Como podemos saber o que aconteceu? As evidências arqueológicas mostram o processo de estratificação social ocorrendo no mundo todo mais ou menos da mesma maneira. Ele culminou no surgimento de civilizações da Idade do Bronze bastante comparáveis em diferentes partes do mundo, mas em momentos diferentes: começando no Egito e na Mesopotâmia, por volta de 3500 a.C.; durante a dinastia Shang no norte da China, por volta de 1400 a.C.; com a ascensão da civilização maia no sul do México, a partir de cerca de 300 d.C.; e na América do Sul por volta da mesma época, levando ao estabelecimento do Império Inca no século XV.
     O problema é que as evidências arqueológicas não revelam muita coisa sobre o mecanismo de estratificação. Os primeiros sinais de mudança são, em geral, maiores variações nos itens tumulares e o surgimento de estilos de cerâmica regional mais elaborados, o que acontece por volta de 5500 a.C. na Mesopotâmia, 2300 a.C. no norte da China e 900 a.C. nas Américas. Essa cerâmica sugere algum grau de especialização e possivelmente o despontar de elites capazes de sustentar artesãos em tempo integral. Grande número de tigelas de cerâmica, feitas em tamanhos padrão, aparecem na Mesopotâmia por volta de 3500 a.C., o que sugere que sua manufatura estava sob controle centralizado e que medidas padrão de grãos e de outras riquezas naturais eram usadas no pagamento de tributos e na distribuição de provisões.
     No norte da China, povoados do período Longshan (3000-2000 a.C.) começam a ter grandes muralhas; armas como lanças e porretes tornam-se mais comuns. Na Mesopotâmia, aparecem entradas de construções em forma de L, depósitos secretos de pedras usadas em atiradeiras e trincheiras defensivas. Tudo isso é sugestivo de uma organização para fins de defesa. Igualmente reveladores são os primeiros passos em direção à escrita, na forma de fichas e selos usados para a administração, no oeste da Ásia, e símbolos escritos em ossos por adivinhos da sorte, no norte da China. Comunidades cada vez maiores, à medida que aldeias se transformam em vilas, indicam melhor organização política, pela simples razão de que sem uma autoridade reconhecida para a solução de conflitos as aldeias parecem não poder crescer além de certo tamanho.
     No início da dinastia Shang, na China, por volta de 1850 a.C., há oficinas artesanais especializadas; algumas comunidades têm certos tipos de oficinas e não outros, sugerindo especialização local deliberada. A habilidade para trabalhar o bronze no Oriente Próximo e na China e o ouro na América do Sul é mais um sinal da especialização dos ofícios. A presença de requintadas peças em metal entre os itens tumulares indica estratificação, em alguns casos num grau extraordinário. Nos túmulos “reais” da cidade mesopotâmica de Ur, datados de c.2500 a.C., os mortos eram sepultados com objetos de ouro ou prata, ou ainda com peças incrustadas de pedras preciosas. Eram também acompanhados por dúzias de criados, músicos e guarda-costas sacrificados, e até de bois para puxar suas bigas. Esses túmulos, com exemplos semelhantes na China, fornecem notáveis e horripilantes evidências de estratificação social.
     Quando as primeiras cidades surgem, com seus artesãos especializados organizados em distritos e construções monumentais como templos e pirâmides, não há dúvida de que houve uma estratificação social. De fato, há evidências escritas diretas dela. Na China, documentos detalham uma complexa hierarquia de nobres, cada um com seu próprio território, sob um rei. Nas cidades-Estado da Mesopotâmia, pequenas tábuas de argila registram impostos pagos, artigos produzidos e provisões distribuídas; há também listas de membros de associações diversas, desde cervejeiros até encantadores de serpentes. No Egito, o Inspetor de Todas as Obras do Rei na Quarta Dinastia (o período em que as pirâmides foram construídas) tinha uma grande equipe de funcionários e escribas que contratavam, alimentavam e organizavam numerosos pedreiros em tempo integral e um número maior ainda de operários da construção que se revezavam. Isso envolvia uma montanha de listas de provisões e tabelas de horários.
     O surgimento da arquitetura monumental, cujos muitos exemplos ainda vemos de pé por todo o mundo, fornece sem dúvida a evidência mais direta e duradoura da estratificação social das primeiras civilizações. Essas obras de grande escala só podem ser levadas a cabo sob uma estratégia de administração eficiente, com um sistema de armazenagem do alimento excedente e de sua distribuição na forma de provisões para os operários. E também sob uma ideologia que convença as pessoas de que o projeto de construção vale a pena – em suma, por uma sociedade hierárquica governada por um rei todo-poderoso. A característica que define esses túmulos, templos e palácios é serem muito maiores e elaborados que o necessário. Essas construções são afirmações de poder, e à medida que as sociedades se tornam mais estratificadas, tornam-se mais proeminentes.

Representação mesopotâmica de uma cidade, com diferentes tipos de trabalhadores supervisionados por um rei.

     As pirâmides do Egito, os zigurates da Mesopotâmia e os templos em degraus do centro e do sul do México tornaram-se possíveis graças aos excedentes agrícolas e ao consequente aumento da complexidade social. Caçadores-coletores não teriam nem sonhado em construí-los, e mesmo que tivessem, faltavam-lhes os meios – a riqueza na forma de alimento excedente e as necessárias estruturas organizacionais – para fazê-lo. Esses grandes edifícios representam monumentos não só ao surgimento das primeiras civilizações, mas também ao nascimento de um grau novo e sem precedentes de desigualdade e estratificação social que persiste desde então.

4. Seguir o alimento

“Fez chover maná para que o povo comesse: deu-lhe o pão dos céus.”
Salmo 78, versículo 24

Uma indicação das estruturas de poder

Numa manhã de maio, pouco antes do nascer do sol, mais de 600 jovens incas luxuosamente vestidos alinharam-se em duas fileiras paralelas num campo sagrado, cercados por caules oscilantes de milho. Quando os primeiros lampejos do sol despontaram, começaram a cantar, de início suavemente, mas com crescente intensidade à medida que o sol se elevava no céu. Sua canção era um canto de vitória militar, ou haylli. O canto foi se avolumando ao longo da manhã, atingindo o clímax ao meio-dia. Depois, tornou-se pouco a pouco mais suave durante a tarde e terminou quando o sol se pôs. No crepúsculo, os rapazes, todos recém-iniciados filhos de incas nobres, começaram a colher o milho. Essa cena, repetida a cada ano, era apenas um de vários costumes incas relacionados ao milho que demonstravam e reforçavam o status privilegiado da elite dominante.
     Outro exemplo era a cerimônia do plantio do milho, que ocorria em agosto. Quando o sol se punha entre duas grandes colunas sobre o morro de Picchu, tal como vistas do centro de Cuzco, a capital inca, era hora de o rei dar início à estação do cultivo. Ele fazia isso arando e plantando um dos vários campos sagrados que só podiam ser lavrados por membros da nobreza. Segundo o relato de uma testemunha ocular: “Na ocasião do plantio, o próprio rei ia e arava um pouco ... o dia em que os incas faziam isso era um festival solene de todos os senhores de Cuzco. Eles ofereciam grandes sacrifícios a essa planície, especialmente em prata, ouro e crianças.” Os nobres incas então lavravam a terra, mas só depois que o rei iniciara o processo. “Se o rei não tivesse feito isso, nenhum índio ousaria cavar a terra, e tampouco acreditaria que ela seria produtiva, se o rei não a tivesse cavado primeiro”, mencionou outro observador. Outros sacrifícios de lhamas e porquinhos-da-índia eram feitos quando o plantio do milho começava. No meio do campo, sacerdotisas derramavam chicha, ou cerveja de milho, em torno de uma lhama branca. Essas oferendas visavam a proteger os campos da geada, do vento e da estiagem.
     Para os incas, a agricultura estava estreitamente associada à guerra: a terra era derrotada, como numa batalha, pelo arado. Assim, a cerimônia da colheita era realizada por jovens nobres como parte de sua iniciação como guerreiros, e eles cantavam um haylli enquanto colhiam o milho para celebrar sua vitória sobre a terra. No início da estação de cultivo seguinte, somente o inca soberano tinha poder para derrotar a terra e se apoderar de suas energias reprodutivas para assegurar o sucesso do ciclo agrícola, por isso tinha de cavar a terra primeiro. Isso enfatizava seu poder sobre o povo: sem ele, todos morreriam de fome. A derrota da terra era também uma reencenação da batalha entre os primeiros incas e os habitantes nativos de Cuzco, os huallas, que os incas tinham derrotado antes mesmo de plantar o primeiro milho. Na visão dos incas, eles haviam triunfado sobre a natureza de duas maneiras: derrotando os selvagens locais e depois introduzindo a agricultura. Os membros da elite dominante afirmavam ser descendentes diretos dos vencedores daquela batalha original. As cerimônias realçavam esse vínculo, e consequentemente o direito da elite de governar as massas, ao mesmo tempo em que também sugeriam que a estrutura hierárquica da sociedade era parte de uma antiga ordem natural. A sugestão era que se o rei e seus nobres fossem derrubados, não haveria ninguém para fazer as plantas crescerem.
     Atividades desse tipo relacionadas ao alimento eram amplamente usadas para definir e reforçar a posição privilegiada da elite em civilizações primitivas. A comida, ou a capacidade de produzi-la, era usada para pagar impostos e exigida como tributo após vitórias militares. Oferendas de alimentos e sacrifícios eram usados para manter a estabilidade do universo e assegurar a continuação do ciclo agrícola. Partilhas formais de comida, na forma de provisões e salários e em banquetes e festivais, enfatizavam também como ela – e portanto o poder – era distribuída. No mundo moderno, acompanhamos o dinheiro para determinar onde está o poder. No mundo antigo, é o alimento que revela as estruturas de poder. Para desvendar a organização das primeiras civilizações, devemos seguir o alimento.

Comida é dinheiro

Os alimentos eram usados em civilizações primitivas como moeda, em escambo e para pagar salários e impostos. Eram transferidos dos agricultores para a elite de várias maneiras, e depois redistribuídos na forma de salários e provisões para sustentar as atividades dessa elite: construções, administração, guerra e assim por diante. O princípio de que parte do excedente agrícola ou todo ele tinha de ser entregue é comum a todas as civilizações primitivas, uma vez que, antes de mais nada, a apropriação desse excedente foi a base fundamental para que elas surgissem. Havia muitos arranjos diferentes. Em todos os casos, porém, a estrutura da sociedade – para quem as pessoas trabalhavam, de onde vinha seu sustento e para onde direcionavam suas lealdades – era definida pelo alimento.
     No Egito e na Mesopotâmia, tributos eram pagos diretamente na forma de alimento ou indiretamente na forma de trabalho agrícola. A maioria dos agricultores egípcios não possuía sua própria terra, arrendando-a de proprietários que reivindicavam uma fração da produção. O Estado possuía muitas terras, o que, portanto, gerava grande receita em provisão de alimentos. Outras terras pertenciam a funcionários públicos, templos, nobres e ao próprio faraó, e também eram arrendadas a agricultores em troca de uma parcela de sua colheita, com uma fração desse aluguel indo para o Estado como imposto. O aluguel cobrado e o imposto arrecadado dependiam do potencial agrícola da terra, de acordo com sua proximidade de poços e canais e do nível que a cheia do Nilo alcançava a cada ano.
     Os Papéis de Hekanakhte, uma série de cartas datadas de c.1950 a.C., escritas por um sacerdote para sua família quando ele estava afastado de sua terra, dão detalhes desse sistema em ação, ao mesmo tempo em que fornecem um raro vislumbre da vida cotidiana no Antigo Egito. Ao que parece, Hekanakhte administrava terras pertencentes a um templo, e em suas cartas ele aconselha a família sobre que áreas cultivar e quanto esperar que cada uma produzisse, quantas sacas de cevada cobrar ao arrendar terras a outros agricultores e quantas pagar aos trabalhadores na propriedade. Fica evidente que os tempos não são bons e que a comida está escassa; Hekanakhte lembra sua família de que eles estão comendo melhor que a maioria das pessoas. Há uma desavença por causa de uma criada chamada Senen, e muita indulgência é demonstrada para com um rapaz mimado chamado Snofru. Dívidas e aluguéis são cobrados em cevada e trigo, e em alguns casos jarros de óleo são aceitos como pagamento no lugar deles: um jarro de óleo vale duas sacas de cevada, ou três de trigo.
     Os impostos, como os aluguéis, eram também pagos na forma de alimento. Os cobradores de impostos levavam os víveres para os centros administrativos regionais, onde eram redistribuídos como pagamento a funcionários do governo, artesãos e agricultores recrutados para trabalhar para o Estado em regime de corveia. Esses trabalhadores instalavam e mantinham sistemas de irrigação, construíam túmulos e pirâmides, trabalhavam em minas e executavam serviço militar. Durante um período de trabalho em regime de corveia, que podia durar vários meses, os trabalhadores eram alimentados, abrigados e vestidos pelo Estado. Foram trabalhadores sob esse regime que construíram as pirâmides; listas de provisões mostram que eles recebiam diariamente porções de pão e cerveja, complementadas com cebola e peixe. Um esquema semelhante prevalecia na Mesopotâmia, onde a terra pertencia a famílias ricas, templos, conselhos municipais ou ao palácio. Os agricultores entregavam uma fração de sua colheita para arrendar a terra, e o rei arrecadava impostos sobre os campos não pertencentes ao palácio. Desse modo, a maior parte do excedente ia para o rei, para os templos erguidos a vários deuses e para os proprietários de terras. Como no Egito, o trabalho em regime de corveia era usado em grandes projetos de construção.
     Em algumas culturas, no entanto, os impostos eram pagos unicamente na forma de trabalho. Na China, sob a dinastia Shang, clãs rurais cultivavam seus próprios campos de propriedade comunal, mas também trabalhavam em campos especiais cuja produção ia para o rei, governadores rurais ou outras autoridades. De maneira semelhante, famílias de agricultores incas cultivavam seus próprios campos e aqueles pertencentes a seu clã, ou ayllu. A produção dos campos dos ayllu sustentava o chefe local e o culto ao deus local. Agricultores também passavam parte de seu tempo trabalhando em campos do Estado ou de templos dedicados aos deuses mais importantes. Esse esquema surgiu de um acordo firmado quando os ayllu, que eram anteriormente comunidades autônomas, foram incorporados ao reino inca: foi permitido aos clãs conservar sua própria terra e sua produção, contanto que, em troca, fornecessem mão de obra para cultivar campos do Estado. Isso significava que o rei inca não recebia de seus súditos nenhum alimento como imposto, o que o colocaria em débito para com eles; em vez disso, os súditos trabalhavam na suas terras e ele ficava com a produção, que era transportada para depósitos regionais. Os agricultores incas tinham também de trabalhar ocasionalmente em regime de corveia em áreas como construção, mineração ou serviço militar. Tudo isso era registrado mediante um sistema de cordões coloridos com nós chamados de quipos.
     A sociedade asteca era dividida em grupos proprietários de terras chamados calpullis. Diferentemente dos ayllu incas, cujos membros eram todos iguais sob o chefe, os calpullis eram supervisionados por algumas famílias de alta posição social pertencentes à nobreza asteca. Cada família cultivava tanto seus próprios campos quanto campos partilhados, cuja produção sustentava os nobres, os templos, os professores e os soldados do calpulli. Os calpullis tinham também de pagar certa quantidade de impostos e trabalho, em regime de corveia, para o Estado. Além disso, o rei, instituições estatais, nobres e guerreiros importantes possuíam suas próprias terras, que eram cultivadas por agricultores sem terras que, em troca, recebiam apenas comida suficiente para sobreviver. O resto da produção dessas terras ia diretamente para seus proprietários.
     O alimento também advinha de Estados súditos, na forma de tributos extorquidos por Estados e cidades-Estado dominantes dos vizinhos mais fracos, sob ameaça de uso de força militar, geralmente após uma vitória bélica. Após a derrota de uma cidade-Estado por outra, na Mesopotâmia por exemplo, a cidade perdedora seria saqueada e teria também de pagar tributos regulares à cidade vencedora. Sargão da Acádia, que conquistou as cidades-Estado da Mesopotâmia por volta de 2300 a.C. e as unificou num império, exigiu vastas quantidades de tributos de cada cidade: inscrições falam de armazéns inteiros de grãos sendo dados em pagamento. Além de enfatizar sua superioridade, isso mantinha as cidades súditas fracas e a capital de Sargão forte, permitindo-lhe também sustentar uma enorme equipe de empregados: ele se gabava de alimentar 5.400 homens todos os dias. Ao redistribuir tributos entre seus seguidores, os soberanos podiam reforçar sua liderança e conservar apoio para outras campanhas militares.
     Talvez o melhor exemplo de cobrança de tributos seja o da “tríplice aliança” asteca entre Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan. Essas três cidades-Estado cobravam tributos de todo o México central. Estados súditos próximos, dentro e em torno do vale do México, tinham de fornecer enormes quantidades de comida: todos os dias o chefe de Texcoco recebia milho, feijões, abóboras, pimentas, tomates e sal para alimentar mais de 2 mil pessoas. Estados mais distantes forneciam algodão, tecidos, metais preciosos, aves exóticas e objeto manufaturados. O montante de imposto pago dependia da distância que separava cada Estado das três capitais (como o controle que a aliança exercia sobre aqueles mais distantes era mais fraco, ela exigia menos tributos deles) e do fato de o Estado ter resistido ou não antes de se submeter ao domínio da aliança (Estados que cediam sem lutar pagavam menos). O fluxo constante de alimento e outros bens para a capital significava que não havia dúvida sobre onde se localizava o poder. Os governantes astecas usavam esses tributos para pagar funcionários, abastecer o exército e sustentar obras públicas. Tributos dados à nobreza reforçavam a posição do soberano e simultaneamente enfraqueciam os chefes de Estados subordinados, que terminavam com menos para distribuir entre seus próprios seguidores: menos alimento significava menos poder.

Alimentando os deuses

À medida que os sistemas de organização social tornaram-se mais complexos, o mesmo ocorreu com as práticas religiosas que davam o respaldo cosmológico ao direito da elite de arrecadar todos esses impostos. Entre as primeiras civilizações do mundo, as crenças e as práticas religiosas variavam amplamente, mas em muitos casos havia uma clara congruência entre o pagamento de impostos pelas massas à elite e o “pagamento” de sacrifícios e oferendas pela elite aos deuses. Acreditava-se que essas oferendas faziam a energia retornar à sua fonte divina, de modo que esta pudesse continuar estimulando a natureza a fornecer alimentos aos seres humanos. Em vez de serem tão poderosos que pudessem existir sem o apoio da humanidade, os deuses eram concebidos como dependentes dos seres humanos, os quais eram por sua vez dependentes dos deuses. Um texto egípcio de c.2070 a.C., por exemplo, refere-se aos seres humanos como o “gado” do deus criador, sugerindo que o deus ao mesmo tempo cuidava dos seres humanos e dependia deles para seu sustento. De maneira semelhante, muitas culturas acreditavam que os deuses haviam criado a humanidade para lhes fornecer alimento espiritual na forma de sacrifícios e preces; em troca, os deuses forneciam alimento físico aos homens fazendo as plantas e os animais crescerem. Sacrifícios eram considerados um meio essencial de manter esse ciclo.
     Algumas culturas mesoamericanas acreditavam que, de tempos em tempos, os deuses sacrificavam a si mesmos, ou uns aos outros, para assegurar a continuidade do universo e a sobrevivência da humanidade. Os maias, por exemplo, acreditavam que o milho era a carne dos deuses, contendo poder divino, e no tempo da colheita os deuses estavam, na verdade, sacrificando-se para sustentar a humanidade. O poder divino transferia-se para os seres humanos quando eles comiam o milho e ficava particularmente concentrado em seu sangue. Sacrifícios humanos com derramamento de sangue eram uma maneira de saldar essa dívida e devolver o poder divino aos deuses. Comida e incenso também eram fornecidos como oferendas, mas os sacrifícios humanos eram considerados os mais importantes.
     Os astecas também consideravam os sacrifícios humanos uma maneira de restituir a energia devida aos deuses. A Mãe Terra, como acreditavam, era alimentada por sangue humano, e as plantas só cresceriam se ela o recebesse em quantidade suficiente. Embora fosse supostamente uma honra ser sacrificado, parece que as vítimas não pertenciam à elite dominante, sendo em geral criminosos, prisioneiros de guerra e crianças. Como se acreditava que a carne e o sangue humanos eram feitos de milho, esses sacrifícios sustentavam o ciclo cósmico: o milho tornava-se sangue, e o sangue era depois transformado de volta em milho. Vítimas dos sacrifícios eram chamadas de “tortillas para os deuses”. Os incas também pensavam que os sacrifícios eram necessários para alimentar os deuses. Ofereciam lhamas, porquinhos-da-índia, aves, hortaliças cozidas, bebidas fermentadas, chocolate, ouro, prata e requintados tecidos, que eram queimados para liberar a energia gasta para tecê-los. Comidas e bebidas alcoólicas feitas de milho eram tidas como particularmente apreciadas pelos deuses. Mas os sacrifícios mais valiosos eram os humanos. Depois de subjugar uma nova região, os incas sacrificavam seus mais belos habitantes.
     Em templos egípcios, animais eram mortos e sua carne era oferecida às imagens dos deuses. Acreditava-se que os deuses incorporavam-se nas imagens três vezes por dia, para absorver a força vital das oferendas, da qual necessitavam para reabastecer a energia gasta para manter o universo em funcionamento. Oferendas de alimentos eram necessárias também para manter a força vital de seres humanos mortos que haviam se tornado deuses. Assim, eram frequentes as oferendas a faraós mortos; enchiam-se os túmulos com vasos de comida para sustentá-los na vida após a morte. De maneira semelhante, na China, sob a dinastia Shang, cereais, cerveja de milhete, animais (cães, porcos, javalis, ovelhas e bois) e sacrifícios humanos, em geral de prisioneiros de guerra, eram oferecidos tanto aos deuses quanto aos ancestrais dos reis. Pensava-se que os deuses bebiam o sangue das vítimas abatidas. As oferendas mais elaboradas, no entanto, eram feitas aos ancestrais dos reis Shang, que se alimentavam desses sacrifícios. Se não fossem suficientemente bem alimentados, acreditavam os reis Shang, os ancestrais puniriam seus descendentes com más colheitas, derrotas militares e pragas.
     Os mesopotâmicos acreditavam que os seres humanos tinham o dever de prover alimentos e residências terrenas para os deuses, que recebiam duas refeições por dia em seus templos. Eles dependeriam desse alimento dado pelos humanos: na versão mesopotâmica da história do dilúvio, os deuses destroem a humanidade e depois se arrependem, pois ficam famintos por causa da falta de oferendas. Um deles, porém, Enki, avisa Utnapishtim (o equivalente mesopotâmico do Noé bíblico) do dilúvio que se aproxima e lhe diz para construir uma arca. Quando Utnapishtim emerge do barco e queima algo como um sacrifício, os deuses se aglomeram em torno da fumaça “como moscas”, porque é o primeiro alimento que recebem em dias. Em seguida, perdoam Enki por ter permitido a alguns seres humanos sobreviver. Os mesopotâmicos acreditavam que os deuses poderiam sobreviver sozinhos se produzissem seu próprio alimento, mas eles criaram os humanos e lhes ensinaram agricultura para que o fizessem em seu lugar.
     Em todos esses casos, sacrifícios e oferendas canalizam energia de volta para o reino espiritual na forma de alimento para deuses e ancestrais, e asseguram que eles, por sua vez, continuem a alimentar a humanidade, mantendo o ciclo agrícola em funcionamento. O oferecimento de sacrifícios deu à elite um papel decisivo como intermediária entre os deuses e as massas agricultoras. Ao pagar impostos, os agricultores trocavam alimento por ordem e estabilidade terrenas, enquanto a elite administrava os sistemas de irrigação, organizava defesas militares e assim por diante. Ao oferecer sacrifícios aos deuses, a elite trocava alimento espiritual por ordem cósmica, enquanto eles mantinham o equilíbrio do universo e a fertilidade do solo.
     Certamente não foi por coincidência que ideologias religiosas tão semelhantes surgiram nas civilizações primitivas, distanciadas como estavam no tempo e no espaço. A noção de que os deuses dependiam de oferendas da humanidade para sua sobrevivência foi peculiar a essas culturas, sem dúvida por ser muito conveniente para os membros das elites dominantes. Isso legitimava a distribuição desigual de riqueza e poder, e fornecia uma advertência implícita de que, sem as atividades administrativas da elite, o mundo acabaria. Os agricultores, seus governantes e os deuses dependiam todos uns dos outros para assegurar sua sobrevivência; haveria uma catástrofe se qualquer um deles se desviasse dos papéis que lhes eram designados. Mas, assim como os agricultores tinham o imperativo moral de fornecer comida para a elite, esta, por sua vez, tinha o dever de cuidar do povo e mantê-lo saudável e em segurança. Havia, em suma, um pacto social entre os agricultores e seus governantes (e, por extensão, os deuses): se nós provemos a sua subsistência, vocês devem prover a nossa. O resultado era que impostos pagos em alimentos terrenos e sacrifícios de alimento espiritual, todos justificados por ideologia religiosa, reforçavam a ordem social e cultural.

As origens agrícolas da desigualdade

No mundo moderno, a equação direta de alimento com riqueza e poder não mais prevalece. Para as pessoas em sociedades agrícolas, o alimento ainda funciona como uma provisão de valor, uma moeda e um indicador de riqueza; é o que as pessoas labutam o dia todo para produzir. Nas sociedades urbanas modernas, porém, é o dinheiro que desempenha esses papéis. O dinheiro é uma forma mais flexível de riqueza, facilmente guardada e transferida, e pode ser prontamente convertido em alimento num supermercado, na quitanda, na cafeteria ou no restaurante. A comida só é equivalente a riqueza e poder quando é escassa ou cara, como ocorreu na maior parte da história. Para os padrões históricos, a comida hoje é relativamente abundante e barata, pelo menos no mundo desenvolvido.
     A comida, entretanto, não perdeu por completo sua relação com a riqueza; seria estranho que isso tivesse acontecido, sendo a conexão tão antiga. Mesmo em sociedades modernas há numerosos ecos do papel econômico outrora central da comida, tanto nas palavras quanto nos costumes. Chamamos de “ganha-pão” o trabalho que garante a subsistência do trabalhador. Em inglês, dinheiro pode ser chamado de bread ou dough. Refeições partilhadas continuam sendo uma forma importante de moeda social. Um jantar requintado deve ser retribuído com uma refeição igualmente suntuosa. Banquetes são uma maneira usual de demonstrar riqueza e status e, no mundo dos negócios, de lembrar às pessoas quem é o chefe. Em muitos países a linha da pobreza é definida em relação à renda necessária para comprar um mínimo básico de gêneros alimentícios. Pobreza é falta de acesso aos alimentos; portanto, riqueza significa não ter de se preocupar em saber de onde virá a próxima refeição.
     Uma característica comum a sociedades ricas, contudo, é um sentimento de que a antiga conexão com a terra foi perdida, assim como o desejo de restabelecê-la. Para os mais abastados nobres romanos, o conhecimento de agricultura e a posse de grandes áreas de terra eram uma maneira de demonstrar que não haviam se esquecido das origens de humildes agricultores de seu povo. De maneira semelhante, muitos séculos depois, na França pré- revolucionária, a rainha Maria Antonieta mandou construir uma fazenda planejada no terreno do palácio de Versalhes, onde ela e suas damas de companhia, vestidas como pastoras e ordenhadoras, ordenhavam vacas que haviam sido meticulosamente limpas. Hoje, pessoas em muitas partes ricas do mundo gostam de cultivar seus próprios alimentos, em hortas ou terrenos alugados da municipalidade. Em muitos casos, elas poderiam facilmente dar-se ao luxo de, em vez disso, comprar as frutas e hortaliças, mas o cultivo de seu próprio alimento proporciona uma ligação com a terra, uma forma suave de exercício, uma provisão de produtos frescos e uma fuga do mundo moderno. (O cultivo de alimentos sem uso de substâncias químicas costuma ser muito valorizado nesses círculos.) Na Califórnia, a parte mais rica do país mais rico do mundo, a comida simples dos camponeses italianos é mais venerada. Na Índia, chegou a ser inaugurada uma aldeia turística, perto do vibrante centro tecnológico de Bangalore, onde a classe média recém-enriquecida experimenta uma versão romantizada da existência de seus antepassados, agricultores de subsistência. Um dos privilégios da riqueza é a opção de imitar os estilos de vida dos pobres camponeses.
     A riqueza tende a afastar as pessoas do cultivo da terra; de fato, não ter necessidade de trabalhar como agricultor é uma outra maneira de definir riqueza. Hoje, as sociedades mais ricas são aquelas em que a proporção da renda gasta com alimentos e a fração da força de trabalho envolvida na sua produção são mais baixas. Os agricultores representam apenas cerca de 1% da população em países ricos como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Em países pobres como Ruanda, o percentual da população dedicado à agricultura ainda é de mais de 80% – como em Uruk 5.500 anos atrás. No mundo desenvolvido, a maioria das pessoas tem trabalhos especializados sem relação com a agricultura, e teria dificuldade em sobreviver caso se visse, de repente, obrigada a produzir sua própria comida. O processo de separação em diferentes papéis, que teve início quando as pessoas começaram a se dedicar à agricultura e abandonaram o estilo de vida igualitário dos caçadores-coletores, chegou à sua conclusão lógica.

     O fato de as pessoas no mundo desenvolvido de hoje terem geralmente um trabalho específico – advogado, mecânico, médico ou motorista de ônibus – é uma consequência direta dos excedentes alimentares que resultam de um contínuo aumento de produtividade da agricultura, durante os últimos milhares de anos. Outro corolário desses excedentes alimentares cada vez maiores foi a divisão em ricos e pobres, poderosos e fracos. Nenhuma dessas distinções pode ser encontrada num bando de caçadores-coletores, a estrutura social que definiu a humanidade durante a maior parte de sua existência. Os caçadores-coletores têm poucas posses, ou nenhuma, mas isso não significa que sejam pobres. Sua “pobreza” só se torna visível quando eles são comparados com membros das sociedades agrícolas, estabelecidas, que têm condições de acumular bens. Riqueza e pobreza, em outras palavras, parecem ser consequências inevitáveis da agricultura e de seu produto, a civilização.




Tom Standage

Uma história comestível da humanidade








Tradução:

Maria Luiza X. de A. Borges


Uma edição:

Zahar Editores




Disponibiliado por:
Le Livros



DADOS DE COPYRIGHT

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso
site: LeLivros.link ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."



Sumário


INTRODUÇÃO   Ingredientes do passado

PARTE I   Os fundamentos comestíveis da civilização
     1. A invenção da agricultura
     2. As raízes da modernidade

PARTE II   Comida e estrutura social
     3. Alimento, riqueza e poder
     4. Seguir o alimento

PARTE III   Os caminhos dos alimentos
     5. Estilhaços do paraíso
     6. Sementes de impérios

PARTE IV   Comida, energia e industrialização
     7. Novo Mundo, novos alimentos
     8. A máquina a vapor e a batata

PARTE V   Comida é arma
     9. O combustível da guerra
     10. Luta por comida

PARTE VI   Comida, população e desenvolvimento
     11. Alimentar o mundo
     12. Paradoxos da abundância

EPÍLOGO   Ingredientes do futuro
     
     Notas
     Bibliografia
     Agradecimentos
     Índice remissivo

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Uma história comestível da humanidade - Os fundamentos comestíveis da civilização

PARTE I

1. A invenção da agricultura

“Vi textos de horticultura expressando grande surpresa diante da maravilhosa habilidade dos jardineiros em produzir tão esplêndidos resultados a partir de materiais tão deficientes; mas a arte foi simples e, no que diz respeito ao resultado final, foi seguida de maneira quase inconsciente. Ela consistiu em sempre cultivar a melhor variedade conhecida, semeando essas sementes, e, quando uma variedade ligeiramente melhor por acaso aparecia, selecioná-la, e assim por diante.”
CHARLES DARWIN, A origem das espécies

Alimentos como tecnologias

O que representa melhor a generosidade da natureza que uma espiga de milho? Com uma torção do punho ela é facilmente arrancada do caule, sem desperdício ou trabalho excessivo. É repleta de grãos saborosos e nutritivos, maiores e mais numerosos que os de outros cereais. E é envolvida por uma palha que a protege de pragas e da umidade. O milho parece um presente da natureza; já vem até embrulhado. Mas as aparências podem enganar. Um campo cultivado de milho, ou de qualquer outro produto agrícola, é tão manufaturado ou fabricado pelo homem quanto um microchip, uma revista ou um míssil. Por mais que gostemos de pensar na agricultura como uma atividade natural, há 10 mil anos ela era uma estranha inovação. Para caçadores-coletores da Idade da Pedra, campos cuidadosamente cultivados que se estendiam até o horizonte seriam uma visão inusitada. O cultivo de terras é um projeto tão tecnológico quanto biológico. E no grande plano da existência humana, as tecnologias em questão – as plantações agrícolas – são invenções muito recentes.
     Os ancestrais dos seres humanos modernos distanciaram-se dos macacos cerca de meio milhão de anos atrás, e seres humanos “anatomicamente modernos” surgiram há cerca de 150 mil anos. Os seres humanos primitivos eram caçadores-coletores que subsistiam com plantas coletadas e animais caçados na natureza. Foi somente nos últimos 11 mil anos, aproximadamente, que se começou a cultivar alimentos. A agricultura emergiu independentemente em momentos e lugares diferentes: já estava estabelecida no Oriente Próximo por volta de 8500 a.C., na China por volta de 7500 a.C. e nas Américas Central e do Sul por volta de 3500 a.C. Desses três pontos de partida principais, a tecnologia da agricultura espalhou-se por todo o mundo, para se tornar o mais importante meio de produção de alimentos da humanidade.
     Essa foi uma mudança extraordinária para uma espécie que dispunha de um estilo de vida nômade, baseado na caça e na coleta, ao longo de toda a sua existência anterior. Se os 150 mil anos de existência dos seres humanos modernos fossem transformados em uma hora, somente nos últimos quatro minutos e meio eles teriam começado a adotar a agricultura, e ela só teria se tornado o meio dominante de subsistência no último minuto e meio. A troca operada pela humanidade entre a procura de alimentos e a lavoura, de um meio natural para um meio tecnológico de produção de alimentos, foi recente e repentina.
     Embora muitos animais coletem e armazenem sementes e outros gêneros alimentícios, os seres humanos são os únicos a cultivar deliberadamente produtos agrícolas específicos e a selecionar e propagar determinadas características desejadas. Como um tecelão, um carpinteiro ou um ferreiro, um agricultor cria coisas úteis que não estão na natureza. Isso é feito mediante o uso de plantas e animais modificados ou domesticados para melhor atender aos objetivos humanos. São criações humanas, ferramentas cuidadosamente manufaturadas para produzir comida de novas formas e em quantidades muito maiores do que ocorreria naturalmente. Não é possível exagerar a importância de seu desenvolvimento, pois eles literalmente tornaram o mundo moderno possível. Três plantas domesticadas, em particular, provaram-se extremamente importantes: trigo, arroz e milho. Elas lançaram os alicerces para a civilização e continuam a sustentar a sociedade humana até hoje.
     O milho fornece a melhor demonstração de que colheitas domesticadas são inquestionavelmente criações humanas. A distinção entre plantas silvestres e domesticadas não é rígida. De fato, as plantas se distribuem num continuum: de inteiramente silvestres, passando por plantas que tiveram algumas características modificadas para convir aos seres humanos, até aquelas inteiramente domesticadas, que só podem se reproduzir com ajuda humana. O milho encaixa-se na última categoria. Ele é o resultado da propagação, pelos seres humanos, de uma série de mutações genéticas aleatórias que o transformaram de uma simples erva num estranho e gigantesco mutante que não pode mais sobreviver na natureza. O milho é descendente do teosinto, um capim silvestre nativo do que hoje é o México. As duas plantas parecem muito diferentes. De fato, porém, apenas algumas mutações genéticas foram suficientes para transformar uma na outra.
     Uma diferença óbvia entre o teosinto e o milho é que as espigas do primeiro consistem de duas fileiras de grãos contidas em invólucros duros, ou glumas, que protegem a parte comestível no interior. Um único gene, chamado pelos geneticistas modernos de tga1, controla o tamanho dessas glumas; uma mutação nesse gene resulta nos grãos expostos. Isso significa que os grãos têm menor probabilidade de sobreviver à viagem através do trato digestivo de um animal, pondo as plantas mutantes em desvantagem reprodutiva em relação às não mutantes, pelo menos na ordem normal das coisas. Mas os grãos expostos teriam também tornado o teosinto muito mais atraente para seres humanos coletores, uma vez que não seria necessário remover as glumas antes do consumo. Ao coletar apenas as plantas mutantes, com grãos expostos, e depois usar esses grãos como sementes, protoagricultores puderam aumentar a proporção de plantas com grãos expostos. A mutação do tga1, em suma, tornou menos provável a sobrevivência do teosinto na natureza, mas tornou-o também mais atraente para os seres humanos, que propagaram a mutação. (No milho, as glumas são tão reduzidas que só as notamos quando ficam presas entre nossos dentes. Elas são o filme sedoso e transparente que envolve cada grão.)

A evolução do teosinto ao protomilho e à espiga moderna.

     Outra diferença óbvia entre o teosinto e o milho está na estrutura, na arquitetura das duas plantas, que determina a posição e o número das partes reprodutivas masculina e feminina, as inflorescências. O teosinto tem uma arquitetura altamente ramificada com múltiplos caules, cada um com uma inflorescência masculina (o pendão) e várias inflorescências femininas (os grãos). O milho, no entanto, tem um único caule e nenhum ramo, um único pendão no topo e espigas muito menos numerosas, mas muito maiores, a meio caminho do caule, encerradas numa palha folhosa. Em geral, há apenas uma espiga, mas em algumas variedades pode haver duas ou três. Essa mudança na estrutura do pé de milho parece ser o resultado de uma mutação num gene conhecido como tb1. Do ponto de vista da planta, essa mutação é negativa: torna mais difícil a fertilização, na qual o pólen do tendão deve descer até a espiga. Do ponto devista dos seres humanos, porém, ela é bastante útil, uma vez que é muito mais fácil colher um pequeno número de espigas grandes que um grande número de espigas pequenas. Consequentemente, protoagricultores estavam mais propensos a colher espigas de plantas com essa mutação. Ao semear esses grãos, propagaram outra mutação que resultou numa planta inferior, mas num alimento superior.
     As espigas, estando mais perto do solo, ficam mais próximas da provisão de nutrientes e podem potencialmente ficar muito maiores. Mais uma vez, a seleção humana guiou esse processo. Quando colhiam espigas de protomilho, os protoagricultores teriam dado preferência a plantas com espigas maiores, e grãos dessas plantas teriam sido usados depois como sementes. Dessa maneira, mutações que resultaram em espigas maiores e com mais grãos se propagaram, de modo que as espigas cresceram de geração em geração e transformaram-se em sabugos de milho. Isso pode ser visto claramente em registros arqueológicos: numa caverna no México foi encontrada uma sequência de sabugos cujo comprimento variava de 1,20 centímetro a 20 centímetros. Mais uma vez, o mesmo traço que tornou o milho atraente para seres humanos o tornou menos viável na natureza. Uma planta com espiga tão grande não pode se propagar de um ano para outro, porque quando a espiga cai na terra e os grãos germinam, a grande proximidade entre tantos grãos competindo pelos nutrientes do solo impede que qualquer um deles se desenvolva. Para que o pé de milho cresça, os grãos devem ser manualmente separados do sabugo e plantados a uma distância suficiente uns dos outros – algo que somente seres humanos podem fazer. Em suma, à medida que os grãos de milho ficaram maiores, a planta foi se tornando inteiramente dependente de seres humanos para sua sobrevivência.
     O que começou como um processo involuntário de seleção tornou-se finalmente deliberado quando agricultores primitivos começaram a propagar características desejáveis de propósito. Transferindo pólen do pendão de uma planta para o cabelo de outra, era possível criar novas variedades que combinavam os atributos dos antecessores. Era preciso manter as novas variedades separadas de outras para evitar a perda dos aspectos desejáveis. Análises genéticas sugerem que um tipo particular de teosinto, chamado teosinto Balsas, tem maior probabilidade de ter sido o progenitor do milho. Análises adicionais de variedades regionais do teosinto Balsas sugerem que o milho foi originalmente cultivado no México central, onde estão hoje os estados de Guerrero, México e Michoacán. A partir dali, ele se espalhou e se tornou um alimento de primeira necessidade para povos em todas as Américas: os astecas e os maias do México, os incas do Peru, e muitas outras tribos e culturas em todas as partes das Américas do Norte, do Sul e Central.
     No entanto, o milho só pôde se tornar um esteio alimentar com a ajuda de mais uma reviravolta tecnológica, uma vez que é deficiente dos aminoácidos lisina e triptofano e da vitamina niacina, elementos essenciais da dieta humana saudável. Quando o milho era apenas mais um gênero alimentício entre muitos, essas deficiências nutricionais não tinham importância porque outros alimentos, como vagens e abóbora, as compensavam. Mas uma dieta com excesso de milho resulta em pelagra, uma doença nutricional caracterizada por náusea, pele áspera, sensibilidade à luz e demência. (Acredita-se que essa sensibilidade à luz explica a origem de mitos europeus sobre vampiros, após a introdução do milho na dieta europeia, no século XVIII.) Felizmente, o milho pode se tornar seguro se for tratado com hidróxido de cálcio, na forma de cinza de madeira ou de conchas moídas, acrescentado diretamente à panela de cozimento ou misturado com água para criar uma solução alcalina em que se deixa o milho imerso da noite para o dia. Isso tem o efeito de amaciar os grãos e tornar seu preparo mais fácil, o que provavelmente explica a origem da prática. Esse processo tem um efeito mais importante, mas menos visível, porque também libera os aminoácidos e a niacina, que existem no milho numa forma inacessível ou “presa”, chamada niacitina. Como os grãos assim processados eram chamados de nixtamal pelos astecas, o processo é conhecido como nixtamalização. Essa prática parece ter sido desenvolvida muito cedo, já em 1500 a.C.; sem ela, as grandes culturas das Américas com dietas baseadas no milho nunca poderiam ter se estabelecido.
     Tudo isto demonstra que o milho não é, em absoluto, um alimento que brota naturalmente. Seu desenvolvimento foi qualificado por um cientista moderno como um dos mais impressionantes feitos de modificação genética já empreendidos. Trata-se de uma tecnologia complexa, desenvolvida por seres humanos ao longo de gerações, a tal ponto que o milho se tornou incapaz de sobreviver por si mesmo, mas pôde fornecer alimento suficiente para sustentar civilizações inteiras.

A inovação dos cereais

O milho é apenas um dos exemplos mais extremos. Os dois outros principais alimentos básicos do mundo, que vieram a sustentar a civilização no Oriente Próximo e na Ásia Oriental são, respectivamente, o trigo e o arroz. Eles também são resultado de processos seletivos humanos que propagaram mutações desejáveis para criar gêneros alimentícios mais convenientes e abundantes. Como o milho, o trigo e o arroz são cereais, e a diferença fundamental entre suas formas silvestres e cultivadas é que as variedades domesticadas são “inquebráveis”. Os grãos estão presos a um eixo central conhecido como raque. À medida que os grãos silvestres amadurecem, a raque torna-se frágil, de modo que se quebra, se despedaça ao ser tocada ou soprada pelo vento, espalhando os grãos como sementes. Isso faz sentido da perspectiva da planta, já que assegura que os grãos só se espalhem depois de maduros, mas é muito inconveniente do ponto de vista de seres humanos que desejam colhê-los.
     Num pequeno número de plantas, no entanto, uma única mutação genética garante que a raque não se torne quebradiça, nem mesmo quando as sementes amadurecem. Isso é chamado de “raque dura”. Essa mutação é indesejável para as plantas em questão, uma vez que elas são incapazes de dispersar suas sementes, mas foi muito útil para seres humanos coletores de grãos silvestres, que, em consequência, provavelmente colheram um número desproporcional de grãos mutantes de raque dura. Se alguns dos grãos tiverem sido depois plantados para produzir uma safra no ano seguinte, a mutação terá se propagado, aumentando a cada ano a proporção de mutantes de raque dura. Arqueólogos demonstraram em experimentos de campo que foi exatamente isso o que aconteceu com o trigo. Eles estimam que plantas com raques duras, inquebráveis, tornaram-se predominantes em cerca de 200 anos – aproximadamente o tempo que levou a domesticação do trigo, segundo os registros arqueológicos. (No milho, o sabugo é de fato uma gigantesca raque inquebrável.)
     Assim como com o milho, protoagricultores selecionaram pés para obter traços desejáveis no trigo, no arroz e em outros cereais durante o processo de domesticação. Uma mutação no trigo faz as glumas que cobrem cada grão se soltarem mais facilmente, resultando em variedades que se “autodebulham”. Em consequência, os grãos individuais ficam menos protegidos, de modo que essa mutação é um mau negócio na natureza, mas muito útil para agricultores, já que torna mais fácil debulhar os grãos comestíveis apenas batendo feixes de trigo cortados sobre uma eira. Quando os grãos eram colhidos do chão, grãos pequenos e aqueles com glumas ainda presas teriam sido desprezados em favor de grãos maiores e sem glumas, o que ajudou a propagar essas mutações úteis.
     Outro traço comum a muitas plantas domesticadas é a perda da dormência da semente, o mecanismo temporal natural que determina quando uma semente germina. Muitas sementes requerem estímulos específicos, como frio ou luz, antes de começar a germinar, para assegurar que só o farão em circunstâncias favoráveis. Sementes que permanecem dormentes até que um período de frio se encerre, por exemplo, não germinarão no outono e esperarão até que o inverno tenha passado. Agricultores, no entanto, gostariam que as sementes começassem a germinar assim que fossem plantadas. Dada uma coleção de sementes, algumas das quais exibem dormência e outras não, é claro que aquelas que começam a brotar imediatamente têm mais chance de ser colhidas e assim de formar a base da próxima safra. Portanto, quaisquer mutações que suprimem a dormência das sementes tenderão a ser propagadas.
     De maneira semelhante, cereais silvestres germinam e amadurecem em momentos diferentes. Isso assegura que, seja qual for a frequência de chuvas, pelo menos alguns dos grãos vão amadurecer para fornecer sementes para o ano seguinte. A colheita de todo um campo de grãos no mesmo dia, contudo, favorece grãos que amadureceram até aquele momento. Grãos excessivamente ou insuficientemente maduros serão menos viáveis se semeados no ano seguinte. A intenção é reduzir a variação no tempo de amadurecimento de um ano para outro, de modo que, finalmente, o campo inteiro amadureça ao mesmo tempo. Isso não é ideal do ponto de vista da planta, pois significa que, potencialmente, a safra inteira pode malograr, mas é muito conveniente para os agricultores.
     No caso do arroz, a intervenção humana ajudou a propagar propriedades desejáveis, como pés mais altos e maiores, para facilitar a colheita, e mais ramos secundários, com grãos maiores, para aumentar a produção. Por outro lado, a domesticação também tornou o trigo e o arroz mais dependentes da intervenção humana. O arroz perdeu sua capacidade natural de sobreviver em áreas alagadas, à medida que foi mimado por agricultores. E tanto o trigo quanto o arroz tornaram-se menos capazes de se autorreproduzir por causa das raques inquebráveis selecionadas pelos seres humanos. A domesticação do trigo, do arroz e do milho, os três principais cereais, e de seus irmãos menos importantes, a cevada, o centeio, a aveia e o milhete, encerrou variações em torno do mesmo tema genético conhecido: alimento mais conveniente, planta menos resistente.
     Um processo semelhante ocorreu à medida que os seres humanos domesticaram animais para fins alimentícios, a começar com ovelhas e cabras no Oriente Próximo, por volta de 8000 a.C., seguidos por gado vacum e porcos. (Os porcos foram domesticados de maneira independente na China mais ou menos ao mesmo tempo, e os frangos foram domesticados no sudeste da Ásia por volta de 6000 a.C.) A maioria dos animais domesticados tem cérebros menores, visão e audição menos aguçadas que seus ancestrais silvestres. Isso reduz sua capacidade de sobreviver na natureza, mas os torna mais dóceis, o que convém aos agricultores.
     Os seres humanos tornaram-se dependentes de suas novas criações, e vice-versa. Ao fornecer uma provisão de alimentos mais confiável e abundante, a agricultura tornou-se a base para novos estilos de vida e sociedades muito mais complexas. Essas culturas basearam-se numa série de alimentos, mas os mais importantes foram os cereais: trigo e cevada no Oriente Próximo, arroz e milhete na Ásia, milho nas Américas. As civilizações que surgiram posteriormente fundadas nessas bases alimentares, inclusive a nossa, devem sua existência a esses antigos produtos de engenharia genética.

Os centros de origem do milho, do trigo e do arroz domesticados.


Presente na criação

Essa dívida com o passado é reconhecida em muitos mitos e lendas, nos quais a criação do mundo e o nascimento da civilização após um longo período de barbárie estão estreitamente relacionados com essas culturas vitais. Os astecas do México, por exemplo, acreditavam que os homens foram criados cinco vezes, cada geração sendo um melhoramento da anterior. Dizia-se que o teosinto havia sido o principal alimento do homem na terceira e na quarta criações, até que, finalmente, na quinta criação, o homem se alimentou com milho. Somente então prosperou, e seus descendentes povoaram o mundo.
     A história da criação dos maias, no sul do México, narrada no Popul Vuh (ou “livro sagrado”) também envolve repetidas tentativas de criar a humanidade. A princípio, os deuses moldaram os homens com barro, mas as criaturas resultantes mal conseguiam enxergar, não podiam se mover e logo foram dissolvidas pela água. Por isso os deuses tentaram de novo, dessa vez fazendo os homens com madeira. Essas criaturas podiam andar de quatro e falar, mas faltavam-lhes sangue e alma, e não honravam os deuses. Os deuses destruíram esses homens também, de modo que tudo que restou foram alguns macacos que habitavam em árvores. Finalmente, após muita discussão sobre a escolha apropriada de ingredientes, os deuses fizeram uma terceira geração de homens com espigas de milho brancas e amarelas. “Do milho amarelo e do milho branco eles fizeram sua carne; de pasta de fubá fizeram os braços e as pernas do homem. Somente pasta de fubá foi usada na carne de nossos primeiros pais, os quatro homens, que foram criados.” Os maias acreditavam ser descendentes desses quatro homens e de suas mulheres, criadas logo depois.
     O milho figura também na história contada pelos incas da América do Sul para explicar suas origens: em tempos antigos, as pessoas em volta do lago Titicaca viviam como animais selvagens. O deus Sol, Inti, apiedou-se delas e enviou seu filho Manco Capac e sua filha Mama Ocllo, que eram também marido e mulher, para civilizá-las. Inti deu a Manco Capac um bastão de ouro com o qual verificaria a fertilidade do solo e sua adequação para o cultivo do milho. Tendo encontrado um lugar adequado, eles deveriam fundar um Estado e instruir as pessoas no culto apropriado do deus Sol. As viagens do casal finalmente os levaram ao vale Cuzco, onde o bastão de ouro desapareceu na terra. Manco Capac ensinou às pessoas agricultura e irrigação, Mama Ocllo ensinou-lhes fiação e tecelagem, e o vale tornou-se o centro da civilização inca. O milho era considerado uma planta sagrada pelos incas, embora a batata também formasse grande parte de sua dieta.
     O arroz também aparece em inúmeros mitos nos países onde é cultivado. Em mitos chineses, ele aparece para salvar a humanidade quando ela está à beira da inanição. Segundo uma história, a deusa Guan Yin apiedou-se dos seres humanos famintos e espremeu seus seios para produzir leite, que escorreu para as espigas antes vazias dos pés de arroz e se transformou em grãos. Depois ela apertou com mais força, fazendo uma mistura de sangue e leite escorrer para alguns pés. Diz-se que isso explica por que existe arroz nas variedades branca e vermelha. Outro conto chinês fala de um grande dilúvio, após o qual restaram muito poucos animais para serem caçados. Quando procuravam comida, as pessoas viram um cão indo em direção a elas com feixes de sementes compridas e amarelas penduradas na cauda. Elas plantaram as sementes, que se transformaram em arroz, e saciaram sua fome para sempre. Numa série de mitos contados na Indonésia e em todas as ilhas da Indochina, o arroz aparece como uma donzela delicada e virtuosa. A deusa indonésia do arroz, Sri, é a deusa da terra que protege as pessoas contra a fome. Uma história conta como Sri foi morta pelos outros deuses para protegê-la do assédio do rei dos deuses, Batara Guru. Quando seu corpo foi enterrado, brotou arroz de seus olhos e um arroz grudento cresceu de seu peito. Cheio de remorso, Batara Guru deu essas plantas para a humanidade cultivar.
     O mito da criação do mundo e do surgimento da civilização contado pelos sumérios, os antigos habitantes do que é hoje o sul do Iraque, refere-se a um momento, após a criação do mundo por Anu, em que existiam pessoas, mas a agricultura era desconhecida. Ashnan, a deusa dos grãos, e Lahar, a deusa das ovelhas, ainda não tinham aparecido; Tagtug, o patrono dos artesãos, ainda não tinha nascido; e Mirsu, o deus da irrigação, e Sumugan, o deus do gado, ainda não tinham chegado para ajudar a humanidade. Em consequência, “os grãos ... e os grãos de cevada para as diletas multidões ainda não eram conhecidos”. Em vez deles, as pessoas comiam capim e tomavam água. As deusas dos grãos e dos rebanhos foram então criadas para fornecer alimento para os deuses, mas por mais que eles comessem, nunca estavam saciados. Somente com o surgimento de homens civilizados, que lhes faziam oferendas regulares de alimentos, seus apetites foram finalmente satisfeitos. Assim, plantas e animais domesticados foram um presente para o homem, mediante a obrigação de fazer oferendas regulares para os deuses. Esse conto preserva uma lembrança popular de um tempo anterior à adoção da agricultura, quando os seres humanos ainda eram caçadores e coletores. De maneira semelhante, um hino sumério à deusa dos grãos descreve uma era bárbara antes das cidades, campos, currais de ovelhas e estábulos para o gado bovino – uma era que chegou ao fim quando a deusa dos grãos inaugurou um novo tempo de civilização.
      Explicações contemporâneas sobre a base genética da domesticação de plantas e animais são, na realidade, apenas a versão moderna, científica, desses mitos antigos e impressionantemente semelhantes da criação pelo mundo todo. Hoje, diríamos que o abandono da caça e da coleta, a domesticação de plantas e animais e a adoção de um estilo de vida sedentário baseado na agricultura puseram a humanidade no caminho para o mundo moderno, e que esses primeiros agricultores foram os primeiros seres humanos modernos, “civilizados”. Reconhecidamente, esta é uma narrativa muito menos pitoresca que aquelas fornecidas pelos vários mitos da criação, mas, uma vez que a domesticação de certos cereais fundamentais foi um passo essencial rumo ao nascimento da civilização, não há dúvida de que esses contos antigos contêm muito mais que apenas um grão de verdade.

2. As raízes da modernidade

“Maldita é a terra por tua causa; com sofrimento tu te alimentarás dela todos os dias da tua vida.”
Gênesis 3:17

Um mistério agrícola

O mecanismo pelo qual plantas e animais foram domesticados pode ser compreendido, mas isso pouco contribui para explicar as motivações das pessoas que o fizeram. Por que os seres humanos trocaram a caça e a coleta pela agricultura é uma das mais antigas, mais complexas e mais importantes questões na história humana. Isso é curioso porque a troca deixou as pessoas em condições significativamente piores, de uma perspectiva nutricional e também em muitos outros aspectos. De fato, um antropólogo descreveu a adoção da agricultura como “o pior erro na história da raça humana”.
     Ser um caçador-coletor era muito mais divertido que cultivar a terra. Antropólogos que conviveram com grupos sobreviventes de caçadores-coletores relatam que, mesmo nas áreas marginais em que eles são obrigados a viver atualmente, a coleta de alimentos só ocupa uma pequena parte de seu tempo – muito menos do que seria requerido para produzir a mesma quantidade de comida por meio da agricultura. Os boxímanes !kung do Kalahari, por exemplo, gastam normalmente de 12 a 19 horas por semana coletando comida, e os nômades hazda da Tanzânia gastam menos de 14 horas. Isso deixa muito tempo livre para atividades de lazer, participação em atividades sociais etc. Quando perguntado por um antropólogo por que seu povo não havia adotado a agricultura, um boxímane respondeu: “Por que deveríamos plantar, quando há tantas nozes de mongongo no mundo?” (Frutos e nozes de mongongo, que constituem cerca da metade da dieta dos !kung, são colhidos de árvores silvestres e são abundantes mesmo quando não se faz nenhum esforço para propagá-los.) Na verdade, os caçadores-coletores trabalham dois dias por semana e têm fins de semana de cinco dias.
     O estilo de vida dos caçadores-coletores nos tempos pré-agrícolas, em ambientes menos marginais, provavelmente era ainda mais agradável. Costumava-se pensar que a mudança para a agricultura dera às pessoas mais tempo para se dedicarem a atividades artísticas e ao desenvolvimento de novos ofícios e tecnologias. A agricultura, nessa visão, teria sido uma libertação da existência ansiosa e incerta do caçador-coletor. No entanto, o contrário é que é verdadeiro. A agricultura é mais produtiva no sentido de que produz mais alimentos por área: um grupo de 25 pessoas pode subsistir por meio da agricultura em apenas dez hectares, uma área muito menor que os milhares de hectares de que precisariam para subsistir caçando e coletando. A agricultura é, entretanto, menos produtiva quando medida pela quantidade de comida produzida por hora de trabalho; em outras palavras, é um trabalho muito mais árduo.
     Certamente esse esforço valeria a pena se significasse que as pessoas não precisavam mais se preocupar com desnutrição ou inanição, não é? É o que se poderia pensar. No entanto, os caçadores-coletores parecem ter sido muito mais saudáveis que os primeiros agricultores. Segundo evidências arqueológicas, os agricultores tinham maior probabilidade que os caçadores-coletores de sofrer hipoplasia do esmalte dentário – que causa linhas horizontais características nos dentes e indica deficiência nutricional. A agricultura proporciona uma dieta menos variada e menos equilibrada que a caça e a coleta. Os boxímanes comem cerca de 75 diferentes tipos de plantas silvestres, em vez de depender de algumas culturas básicas. Os cereais fornecem as calorias necessárias, mas não contêm a série completa de nutrientes essenciais.
     Por isso os agricultores eram mais baixos que os caçadores-coletores. Isso pode ser determinado a partir de restos esqueletais, mediante a comparação da idade “dentária” com a idade “esqueletal” indicada pelo comprimento dos ossos longos. Uma idade esqueletal inferior à idade dentária é evidência de crescimento tolhido pela desnutrição. Evidências esqueletais da Grécia e da Turquia sugerem que, no fim da última Era do Gelo, cerca de 14 mil anos atrás, a altura média dos caçadores-coletores era 1,75 metro para os homens e 1,65 metro para as mulheres. Em 3000 a.C., após a adoção da agricultura, essas médias tinham caído para 1,60 metro para os homens e 1,52 metro para as mulheres. Foi só nos tempos modernos que os seres humanos recuperaram a estatura dos antigos caçadores-coletores, e somente nas partes mais ricas do mundo. Os gregos e os turcos modernos ainda são mais baixos que seus ancestrais da Idade da Pedra.
     Além disso, muitas doenças danificam os ossos de maneiras características, e estudos de esqueletos revelam que agricultores sofriam de várias doenças por desnutrição, raras ou ausentes entre caçadores-coletores. Entre elas estão o raquitismo (deficiência de vitamina D), o escorbuto (deficiência de vitamina C) e a anemia (deficiência de ferro). Os agricultores eram também mais suscetíveis a doenças infecciosas como lepra, tuberculose e malária, em decorrência do estilo de vida sedentário. A dependência de cereais teve outras consequências específicas: os esqueletos femininos frequentemente exibem evidências de articulações artríticas com deformidades nos dedos dos pés, joelhos e na parte inferior das costas, todas elas associadas ao uso diário de um almofariz-pedestal para moer grãos. Restos dentários mostram que agricultores sofriam de cáries, desconhecidas entre caçadores-coletores, porque os carboidratos das dietas saturadas de cereais eram metabolizados em açúcares por enzimas da saliva na mastigação. A expectativa de vida, que pode igualmente ser determinada a partir de esqueletos, também caiu: evidências do vale do rio Illinois mostram que a expectativa de vida média caiu de 26 anos entre caçadores-coletores para 19 entre agricultores.
     Em alguns sítios arqueológicos é possível acompanhar o desenvolvimento da saúde dos caçadores-coletores, que se tornavam mais sedentários até, por fim, adotarem a agricultura. À medida que os grupos de agricultores se estabelecem e crescem, a incidência de desnutrição, doenças parasíticas e doenças infecciosas se eleva. Em outros sítios, é possível comparar a condição de caçadores-coletores e agricultores vivendo lado a lado. Os agricultores, sedentários, são invariavelmente menos saudáveis que seus vizinhos que vagam livremente. Os agricultores tinham de trabalhar muito mais tempo e mais arduamente para produzir uma dieta menos variada e menos nutritiva, e eram muitos mais propensos a doenças. Diante de todas essas desvantagens, por que cargas-d’água as pessoas adotaram a agricultura?

As origens da agricultura

A resposta imediata é que elas não compreenderam o que estava acontecendo até ser tarde demais. A mudança da caça e da coleta para a agricultura foi gradual da perspectiva de agricultores individuais, embora tenha sido muito rápida no contexto da história humana. Pois, assim como as plantas formam um continuum de silvestres a domesticadas, há uma gradação entre ser exclusivamente caçador e coletor e depender inteiramente de produtos cultivados.
     Caçadores-coletores por vezes manipulam ecossistemas para aumentar a disponibilidade de alimentos, embora tal comportamento fique muito longe do cultivo deliberado em grande escala que chamamos de agricultura. O uso do fogo para limpar terras e estimular novo crescimento, por exemplo, é uma prática que remonta a pelo menos 35 mil anos atrás. Os aborígines australianos, um dos poucos grupos de caçadores-coletores que sobreviveram aos tempos modernos, ocasionalmente plantam sementes para aumentar a disponibilidade de alimentos quando voltam a uma região particular alguns meses depois. Seria um exagero chamar isso de agricultura, já que esse alimento constitui apenas uma pequena fração de sua dieta, mas a manipulação deliberada dos ecossistemas significa que eles tampouco são exclusivamente caçadores-coletores.
     A adoção da agricultura parece ter acontecido à medida que as pessoas se moveram gradualmente ao longo do espectro entre ser puros caçadores-coletores, passando a recorrer cada vez mais a alimentos cultivados, até finalmente depender deles. Teorias para explicar essa mudança são muitas, mas provavelmente não houve uma causa única. Em vez disso, houve provavelmente uma combinação de fatores, cada um dos quais desempenhou um papel maior ou menor nos vários territórios em que a agricultura surgiu de maneira diversa.
     Um dos fatores mais importantes parece ter sido a mudança climática. Estudos do clima antigo, baseados em análise de núcleos de gelo, amostras de solo de mares profundos e perfis de pólen, descobriram que entre 18000 a.C. e 9500 a.C. o clima era frio, seco e extremamente variável, de modo que qualquer tentativa de cultivar ou domesticar plantas teria fracassado. De modo intrigante, há evidências de pelo menos uma tentativa de fazê-lo, numa localidade chamada Abu Hureyra, no norte da Síria. Por volta de 10700 a.C., os habitantes do local parecem ter começado a domesticar centeio, mas a tentativa malogrou por força de um repentino período frio conhecido como o Dryas recente, que começou por volta de 10700 a.C. e durou cerca de 1.200 anos. Depois, por volta de 9500 a.C., o clima tornou-se subitamente mais quente, mais úmido e mais estável, proporcionando uma condição necessária, mas não suficiente, para a agricultura. Afinal, se o clima recentemente estabilizado tivesse sido o único fator a propiciar a adoção da agricultura, as pessoas a teriam adotado simultaneamente no mundo todo; como elas não o fizeram, deve ter havido outras forças em ação.
     Um desses fatores foi um maior sedentarismo, à medida que caçadores-coletores em algumas partes do mundo tornaram-se menos inquietos e começaram a passar a maior parte do ano num único acampamento, até mesmo se estabelecendo em residências permanentes. Há muitos exemplos de comunidades aldeãs sedentárias anteriores à agricultura, como aquelas da cultura natufiana do Oriente Próximo, que floresceu no milênio anterior ao Dryas recente, e outras no litoral norte do Peru e no noroeste da América do Norte, na costa do Pacífico. Em todos os casos, essas pequenas comunidades tornaram-se viáveis graças aos alimentos silvestres locais abundantes, muitas vezes na forma de peixes ou mariscos. Normalmente, caçadores-coletores deslocam seus acampamentos para evitar que a oferta de alimentos numa área específica se esgote, ou para tirar proveito da disponibilidade sazonal de diferentes alimentos. Mas não há necessidade de se mudar de um lugar para outro quando o grupo se estabelece perto de um rio e o alimento vem até ele. O aprimoramento de técnicas de coleta de alimentos no final da Idade da Pedra, com flechas, redes e anzóis melhores, pode também ter promovido o sedentarismo. Podendo extrair mais alimentos (como peixes, pequenos roedores ou mariscos) de seus arredores, um bando de caçadores-coletores não precisava se deslocar tanto.
     O sedentarismo nem sempre levou à agricultura, e alguns grupos de caçadores-coletores estabelecidos sobreviveram até os tempos modernos sem jamais adotá-la. É certo, porém, que ele tornou a mudança para a agricultura mais provável. Caçadores-coletores estabelecidos que coletavam grãos silvestres, por exemplo, podem ter começado a plantar algumas sementes para manter a oferta. O plantio poderia também ter se tornado uma segurança contra variações na oferta de outros alimentos. E, como os grãos são processados com o uso de moendas cujo transporte de um acampamento para outro era inconveniente, um maior sedentarismo teria tornado os grãos um gênero alimentício mais atraente. O fato de os grãos serem ricos em energia e de poderem ser secados e armazenados por longos períodos também contava a seu favor. Não eram um gênero alimentício extremamente empolgante, mas podia-se contar com eles em circunstâncias extremas.
     Não é difícil imaginar como caçadores-coletores sedentários podem ter começado a depender mais intensamente de cereais em sua dieta. O que no início era um alimento relativamente pouco importante ganhou espaço pela simples razão de que protoagricultores podiam assegurar sua disponibilidade (pelo plantio e armazenagem) como não podiam fazer com outras comidas. Evidências arqueológicas do Oriente Próximo sugerem que, inicialmente, protoagricultores cultivavam quaisquer cereais silvestres que estivessem à mão, como trigo einkorn. Mas, à medida que se tornaram mais dependentes deles, mudaram para itens mais produtivos, como trigo emmer, que proporciona mais alimento com a mesma quantidade de trabalho.
     O crescimento populacional resultante do sedentarismo também foi sugerido como fator contribuinte para a adoção da agricultura. Caçadores-coletores nômades têm de carregar tudo consigo quando deslocam seu acampamento, inclusive bebês. Só quando uma criança começa a andar sem ajuda, aos três ou quatro anos, sua mãe pode pensar em ter outro filho. Em comunidades estabelecidas, no entanto, as mulheres não enfrentam esse problema, e podem portanto ter mais filhos. Com isso, a demanda por alimentos nas proximidades teria aumentado e poderia ter estimulado o plantio suplementar e, finalmente, a agricultura. Um problema dessa linha de argumentação, porém, é que em algumas partes do mundo a densidade populacional parece só ter crescido de maneira significativa depois da adoção da agricultura, e não antes.
     Há muitas outras teorias. Em certos locais, caçadores-coletores podem ter se voltado para a agricultura quando as espécies de caça de grande porte que eram suas presas preferidas escassearam. A agricultura pode ter sido estimulada pela competição social, quando grupos rivais competiam para promover os banquetes mais suntuosos; isso poderia explicar por que, em algumas partes do mundo, alimentos de luxo parecem ter sido domesticados antes de alimentos de primeira necessidade. Ou talvez a inspiração fosse religiosa, e as pessoas plantassem sementes como um rito de fertilidade ou para apaziguar os deuses depois de colher grãos silvestres. Já foi sugerido que a fermentação acidental de cereais e a resultante  descoberta da cerveja incentivaram a adoção da agricultura, no intuito de garantir uma provisão regular.
     O importante é que em nenhum momento alguém tomou uma decisão consciente de adotar um estilo de vida inteiramente novo. Em cada passo ao longo do caminho, as pessoas simplesmente decidiram pelo que fazia mais sentido na ocasião: por que ser um nômade quando era possível se estabelecer junto de uma boa provisão de peixes? Se não fosse possível contar com fontes de alimentos silvestres, por que não plantar algumas sementes para aumentar a oferta? A lenta e crescente dependência de alimentos cultivados em que se viram os protoagricultores tomou a forma de uma mudança gradual, não de uma reviravolta repentina. Em algum momento, porém, uma fronteira imperceptível foi atravessada e as pessoas começaram a ficar dependentes da agricultura. A linha é cruzada quando os recursos alimentares silvestres na área circundante, plenamente explorados, já não são suficientes para sustentar a população. A produção deliberada de alimento suplementar por meio da agricultura deixa então de ser opcional e torna-se compulsória. Nesse ponto, não pode haver retorno a um estilo de vida nômade, caçador-coletor – pelo menos sem uma perda significativa de vidas.

Espalharam-se os agricultores ou espalhou-se a agricultura?

Em seguida, a agricultura propõe um segundo enigma. Depois que ganhou raízes em algumas partes do mundo, a questão passa a ser: por que ela se disseminou por praticamente toda parte? Uma possibilidade é que agricultores tenham se espalhado, deslocando ou exterminando caçadores-coletores à medida que avançavam. Outra opção é que caçadores coletores nas margens de áreas agrícolas podem ter decidido seguir o exemplo e tornar-se eles mesmos agricultores, adotando os métodos, as plantas e os animais domesticados de seus vizinhos. Essas duas possibilidades são conhecidas como “difusão dêmica” e “difusão cultural”, respectivamente. Desse modo, foram os próprios agricultores que se difundiram ou foi apenas a ideia de agricultura que se difundiu?
     A ideia de que os fazendeiros se espalharam a partir de seus territórios natais cultivados, levando consigo plantas domesticadas e conhecimento de técnicas agrícolas, é sustentada por evidências de muitas partes do mundo. À medida que agricultores passaram a estabelecer novas comunidades em terras não cultivadas, o resultado foi uma “onda de avanço” centrada nas áreas onde a domesticação ocorreu primeiro. A Grécia, por exemplo, parece ter sido colonizada por agricultores que chegaram por mar do Oriente Próximo, entre 7000 a.C. e 6500 a.C. Arqueólogos encontraram no país muito poucos sítios de caçadores-coletores, mas centenas de sítios agrícolas primitivos. De maneira semelhante, agricultores que chegaram da China através da península coreana parecem ter introduzido o cultivo do arroz no Japão a partir de cerca de 300 a.C. Evidências linguísticas também sustentam a ideia de uma migração a partir de territórios natais agrícolas, em que tanto línguas quanto práticas agrícolas se dispersaram. A distribuição de famílias linguísticas na Europa, no leste da Ásia e na Austronésia é amplamente compatível com evidências arqueológicas sobre a difusão da agricultura. Hoje, quase 90% da população do mundo fala algum idioma pertencente a uma das sete famílias de línguas que tiveram suas origens em dois desses territórios: o Crescente Fértil e partes da China. As línguas que falamos hoje, e as comidas que comemos, descendem daquelas usadas pelos primeiros agricultores.
     No entanto, existem também evidências que sugerem que caçadores-coletores nem sempre foram expulsos ou exterminados por agricultores forasteiros, mas ao contrário, que viviam ao lado deles e em alguns casos tornaram-se também agricultores. O exemplo mais claro é encontrado no sul da África, onde caçadores-coletores khoisan adotaram o gado bovino eurasiano do norte e tornaram-se pastores desses rebanhos. Vários sítios arqueológicos europeus fornecem evidências de agricultores e caçadores-coletores vivendo lado a lado e trocando produtos. Como os dois tipos de comunidade tinham ideias muito diferentes sobre os tipos de ambiente em que era desejável se estabelecer, não há razão para que não pudessem coexistir, desde que restassem nichos ecológicos adequados para os caçadores-coletores. As coisas, entretanto, teriam ficado progressivamente mais difíceis para os caçadores-coletores que viviam perto de agricultores. Estes não se preocupavam tanto em preservar recursos alimentares silvestres perto de suas comunidades, uma vez que tinham alimentos cultivados a que recorrer. Dessa forma, os caçadores-coletores ou se juntavam às comunidades agrárias, ou adotavam eles mesmos a agricultura, ou eram obrigados a se mudar para novas áreas.
     Sendo assim, que mecanismos predominaram? Na Europa, onde o advento da agricultura foi mais intensamente estudado, pesquisadores usaram a análise genética para determinar se os ancestrais dos europeus modernos eram predominantemente caçadores-coletores que adotaram a agricultura ou agricultores imigrantes provenientes do Oriente Próximo. Nesses estudos, pessoas da península anatoliana (oeste da Turquia), que se situa dentro do Crescente Fértil, são consideradas geneticamente representativas dos primeiros agricultores. De maneira semelhante, supõe-se que os bascos são os descendentes mais diretos dos caçadores-coletores, por duas razões. Primeiro, a língua basca não tem nenhuma semelhança com línguas europeias descendentes do proto-indo-europeu, a família linguística introduzida na Europa juntamente com a agricultura, parecendo antes remontar à Idade da Pedra. (Várias palavras bascas para ferramentas começam com “aitz”, o termo usado para pedra, o que sugere que datam de um tempo em que ferramentas de pedra estavam em uso.) Segundo, há diversas variações genéticas específicas dos bascos que não são encontradas em outros europeus.
     Num estudo recente, amostras genéticas foram colhidas desses dois grupos e depois comparadas com amostras de populações de diferentes partes da Europa. Os pesquisadores descobriram que as contribuições genéticas dos bascos e dos anatolianos variavam significativamente através do continente: a contribuição anatoliana (isto é, do agricultor do Oriente Próximo) era de 79% nos Bálcãs, 45% no norte da Itália, 63% no sul da Itália, 35% no sul da Espanha e 21% na Inglaterra. Em suma, a contribuição de agricultores era mais elevada no leste e mais baixa no oeste. Isso fornece a resposta para o enigma e sugere que a agricultura se difundiu como resultado de um processo híbrido em que uma população agricultora migrante se espalhou pela Europa a partir do leste e foi gradualmente diluída por meio de casamentos com membros do grupo dos caçadores-coletores, de modo que a população resultante terminou sendo descendente de ambos os grupos. Provavelmente, a mesma coisa aconteceu também em outras partes do mundo.
     A difusão da agricultura a partir de territórios agrícolas natais, seguida pelo crescimento populacional das comunidades agrárias, significou que os fazendeiros tornaram-se mais numerosos que os caçadores-coletores dentro de poucos milhares de anos. Por volta de 2000 a.C., a maior parte da humanidade havia adotado a agricultura. Foi uma mudança tão fundamental que até hoje, muitos milhares de anos depois, a distribuição das línguas e dos genes humanos continua a refletir o advento da agricultura. Durante a domesticação, plantas foram geneticamente reconfiguradas por seres humanos, e, à medida que a agricultura foi adotada, seres humanos foram geneticamente reconfigurados por plantas.

O homem, um animal agrícola

Os agricultores e suas plantas e animais domesticados selaram um grande pacto e seus destinos se entrelaçaram, embora os agricultores não se dessem conta disso na época. Vejamos o milho. A domesticação o tornou dependente do homem, mas sua aliança com os seres humanos também o levou muito além de suas origens como uma obscura erva mexicana, e hoje ele é um dos produtos mais amplamente cultivados na Terra. Do ponto de vista da humanidade, por outro lado, a domesticação do milho tornou disponível uma nova e abundante fonte de alimento, ao mesmo tempo que seu cultivo (como o de outras plantas) incitou as pessoas a adotar um novo estilo de vida, sedentário, baseado na agricultura. É o homem que está explorando o milho para sua satisfação, ou é o milho que está explorando o homem? A domesticação, ao que parece, é uma via de mão dupla.
     Até hoje, milhares de anos depois que os primeiros agricultores iniciaram o processo de domesticação das plantas e animais, a humanidade continua sendo uma espécie agrícola, e a produção de alimento continua sendo sua principal ocupação. A agricultura emprega 41% da população mundial, mais que qualquer outra atividade, e ocupa 40% da área de terras do globo. (Cerca de um terço dessa terra é usada para a produção de plantas, e aproximadamente dois terços fornecem pastos para gado.) Os mesmos três alimentos que sustentaram as primeiras civilizações continuam sendo os fundamentos da existência humana: trigo, arroz e milho ainda fornecem a maior parte das calorias consumidas pela raça humana. Somente uma pequena parcela da comida consumida pelos seres humanos hoje vem de fontes silvestres: peixes, mariscos e uma pequena quantidade de bagas, castanhas, cogumelos etc.
     Em consequência, praticamente nenhum dos alimentos que comemos hoje pode ser, de fato, qualificado como natural. A quase totalidade deles é resultado de reprodução seletiva – inadvertida de início, mas depois mais deliberada e cuidadosa, à medida que os agricultores propagaram as características mais valiosas presentes na natureza para criar mutantes novos e domesticados, mais adequados às necessidades humanas. Grãos, vacas e frangos, tal como o conhecemos, não existem na natureza, e não existiriam hoje sem a intervenção humana. Até as cenouras alaranjadas são criação humana. Originalmente, elas eram brancas e roxas; a variedade alaranjada, mais doce, foi criada por horticultores holandeses no século XVI como um tributo a Guilherme I, príncipe de Orange. A tentativa de um supermercado britânico de reintroduzir a variedade roxa tradicional em 2002 fracassou porque os fregueses preferiram o tipo alaranjado seletivamente reproduzido.
     Todas as plantas e animais domésticos são tecnologias criadas pelo homem. Mais ainda, quase todas as plantas e animais que conhecemos hoje remontam aos tempos antigos. A maioria foi domesticada antes de 2000 a.C., e muito poucos foram criados desde então. Dos 14 animais de grande porte domesticados, somente um, a rena, foi domesticada nos últimos milênios, e tem valor marginal (embora sua carne seja muito saborosa). O mesmo pode ser dito das plantas: mirtilos, morangos, oxicocos, kiwis, macadâmias, pecãs e cajus foram todos domesticados há relativamente pouco tempo, mas nenhum é um gênero alimentício importante.
     Somente espécies aquáticas foram domesticadas em quantidades significativas no século passado. Em suma, os primeiros agricultores conseguiram domesticar a maioria das plantas e dos animais que valiam a pena muitos milhares de anos atrás. Isso pode explicar por que há uma suposição tão generalizada de que plantas e animais domesticados são naturais, e por que esforços contemporâneos para refiná-los ainda mais, usando técnicas modernas de engenharia genética, atraem tantas críticas e provocam tanto medo. No entanto, pode-se alegar que a engenharia genética é apenas um recente desdobramento num campo de tecnologia que remonta a mais de 10 mil anos atrás. Milho tolerante a herbicidas não existe na natureza, é verdade – mas o mesmo pode ser dito de qualquer outro tipo de milho.
     A simples verdade é que a agricultura é profundamente antinatural. Ela fez mais para mudar o mundo, e teve mais impacto sobre o ambiente, que qualquer outra atividade humana. Levou ao desmatamento generalizado, à destruição ambiental, ao deslocamento de vida silvestre “natural” e à realocação de plantas e animais milhares de quilômetros distantes de seus habitats naturais. Envolve a modificação genética de plantas e animais para criar mutantes monstruosos que não existem na natureza e que, com frequência, não podem sobreviver sem a intervenção humana. Subverteu o modo de vida do caçador-coletor que definira a existência humana por dezenas de milhares de anos, incitando os seres humanos a trocar uma existência variada e sossegada de caça e coleta por vidas de trabalho árduo e enfadonho. A agricultura certamente não seria tolerada se tivesse sido inventada hoje. Apesar disso, a despeito de todos os seus defeitos, ela é a base da civilização tal como a conhecemos. Plantas e animais domesticados são os próprios fundamentos do mundo moderno.




Tom Standage

Uma história comestível da humanidade




Tradução:
Maria Luiza X. de A. Borges

Uma edição:
Zahar Editores




Disponibiliado por:
Le Livros




DADOS DE COPYRIGHT

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso
site: LeLivros.link ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."



Sumário


INTRODUÇÃO   Ingredientes do passado

PARTE I   Os fundamentos comestíveis da civilização
     1. A invenção da agricultura
     2. As raízes da modernidade

PARTE II   Comida e estrutura social
     3. Alimento, riqueza e poder
     4. Seguir o alimento

PARTE III   Os caminhos dos alimentos
     5. Estilhaços do paraíso
     6. Sementes de impérios

PARTE IV   Comida, energia e industrialização
     7. Novo Mundo, novos alimentos
     8. A máquina a vapor e a batata

PARTE V   Comida é arma
     9. O combustível da guerra
     10. Luta por comida

PARTE VI   Comida, população e desenvolvimento
     11. Alimentar o mundo
     12. Paradoxos da abundância

EPÍLOGO   Ingredientes do futuro
     
     Notas
     Bibliografia
     Agradecimentos

     Índice remissivo